sábado, 21 de outubro de 2017

As capitais do Danúbio

Ao longo do seu curso por uma dezena de países europeus, o rio Danúbio atravessa quatro capitais. A mais recente viagem permitiu visitar três delas - Budapeste, Bratislava e Viena (faltou Belgrado para completar o circuito das capitais banhadas pelo segundo maior rio europeu). E se no caso de Budapeste se tratou de um regresso, já as capitais eslovaca e austríaca estrearam-se no meu mapa de viagens. De caminho, e por força de uma escala de várias horas, houve direito a novo cromo repetido na caderneta viajeira: Bergamo. Quatro cidades, em quatro países diferentes, ao longo de cinco dias.

Budapeste

Um regresso à capital húngara, exatamente dois anos após a primeira visita, naquela lone trip das 15 horas de comboio (havendo rotas diretas, ir de avião é realmente mais rápido).

Vista de Budapeste a partir do Castelo de Buda, com a Catedral de Szent István, o Parlamento e a Ponte das Correntes sobre o Danúbio 

Budapeste é uma daquelas cidades onde não me importo de voltar e, desta vez, com melhor companhia e meteorologia mais favorável, vi a Rainha do Danúbio com outros olhos. Ainda que já conhecesse as principais landmarks locais, foi agradável visitar novamente a Basílica de Szent István, atravessar a Ponte das Correntes (Széchenyi Lánchíd) e passear pelo centro histórico de Buda, com passagem pelo castelo, Igreja de Matias, Bastião dos Pescadores e aquela que é, possivelmente, a rua mais bonita da cidade: a rua Tóth Árpád (que não destaquei no texto de há dois anos, mas devia). Com a companhia certa, e já pincelada com as cores outonais, esta rua é ainda mais bonita, ainda mais romântica.

Rua Tóth Árpád

Interior da Basilica de Szent István

Castelo de Buda e um dos leões que guarda a entrada da Ponte das Correntes

Qualquer passagem por Budapeste não fica completa sem uma caminhada pela marginal, ao longo do Danúbio e junto ao Parlamento (Országház) e um passeio pela Praça dos Heróis e pelo Parque Városliget.

Parlamento visto a partir da Ponte Magrit

Uma nova passagem pelo marcante memorial dos Sapatos no Danúbio

Parque Városliget numa manhã chuvosa (ir a Budapeste e não apanhar chuva deve ser quase impossível)

Por limitações de tempo, ficaram de fora a ilha Margit, a colina de Gellért e, novamente, as Termas de Széchenyi. Foi a visita possível (apenas um dia e meio). Última paragem em Budapeste: estação de Népliget, para apanhar um autocarro rumo ao destino seguinte.

Bratislava

A capital da Eslováquia é como todas as capitais deveriam ser: pequena, com pouca gente (locais e turistas) e, por isso, pitoresca e acolhedora. Esta atmosfera de cidade pequena, de capital que não o parece (também só o é há 25 anos) revela-se logo à saída do autocarro, na estação junto à ponte Most SNP - o centro é logo ali.

Rua Michalská. Ao fundo, o Michalská brána, ou Portão de São Miguel (séc. XIV)

Perspetiva noturna da fonte Maximiliánova, situada na Hlavné námestie, a praça central de Bratislava

Meio dia chega e sobra para percorrer o bem conservado centro histórico, passear pela marginal Razunovo nábreží, junto ao Danúbio, e subir ao Castelo (Bratislavský hrad), de onde se obtem uma excelente panorâmica sobre a cidade e arredores.

Estátua de Svatopluk I junto ao Castelo de Bratislava

Vista de Bratislava a partir do castelo

A estadia foi breve, mas suficiente para conhecer e ter ficado a gostar desta "little big city", como lhe chamam. E deu também para eliminar aquela imagem da cidade sombria e perigosa retratada no filme Hostel.

Viena

O destino principal da viagem e aquele que, por isso, teve direito a mais tempo (praticamente 2 dias inteiros) foi curiosamente o único que deixou um certo sabor a pouco. Se para visitar o centro histórico da vizinha capital eslovaca chega um par de horas, para o centro histórico de Viena não chega um par de dias, e a cidade inteira exigirá no mínimo uma semana.
Os dois dias orçamentados chegaram, no fundo, para o básico: visitar, no centro histórico (Innere Stadt) a Catedral de St. Stephan e a envolvente Stephansplatz, e caminhar pelas ruas pedonais Graben e Kohlmarkt até à Michaelerplatz, onde se ergue o Palácio de Hofburg, residência oficial da família imperial austríaca (dinastia Habsburg) durante vários séculos.

Catedral de St. Stephan

Graben

Pormenor da fachada do Palácio de Hofburg

Já um pouco afastado do centro, encontra-se outro ponto de visita obrigatória - o imponente Palácio de Schönbrunn e os seus vastos jardins, antiga residência de Verão dos Habsburg (Hofburg era a residência de Inverno).

Palácio de Schönbrunn

Ficou, no entanto, muita coisa por visitar e explorar - o centro histórico foi visto muito pela rama, a Ringstrasse, que contorna o Innere Stadt e é caracterizada como uma montra da arquitetura local, foi percorrida apenas parcialmente, o Prater e toda a área junto ao Danúbio ficaram em falta. Em boa verdade, nem vi o Danúbio em Viena, mas apenas o chamado Donaukanal, um antigo braço do rio principal que passa pelo centro da cidade. 

Donaukanal junto à Rembrandtstrasse

E, claro, ficou também em falta um contacto com a herança daquela que é considerada a capital musical da Europa. Por tudo isto, Viena merece um segundo round. Talvez um dia lá volte. 

Bergamo

Quando fui à Suíça em abril passado, gabei-me de ter estado em três países num só dia. Pois bem, desta vez e só por causa das coisas, foram quatro: acordar na Áustria, ir à Eslováquia apanhar um voo para Itália, e daí apanhar um outro voo de regresso à Roménia. Pelo meio, devido à proximidade face ao aeroporto e porque a rapariga nunca tinha estado em solo italiano, visitei novamente a cidade de Bergamo.
Se na primeira visita, ocorrida numa tarde chuvosa de quinta-feira, fiquei encantado com a cidade, agora que voltei num domingo solarengo já não achei tanta piada. Os encantos continuam lá, mas sendo fim-de-semana e havendo meteorologia agradável, fui encontrar as ruas pejadas de gente, e basta isso para ficar logo mal disposto. Até o funicular entre a Città Bassa e a Città Alta tinha uma fila ao estilo da Telecabina de Busteni, pelo que desta vez a subida teve de ser feita a pé, entrando pela Porta San Giacomo. Apesar do excesso de pessoas, foi agradável percorrer novamente a Via Gombito e passar pela Piazza Vecchia.

Via Gombito junto à Piazza Vecchia, com a Torre di Gombito em destaque

Torre Civica ou Campanone (séc. XI)

Esta viagem permitiu adicionar mais duas entradas (Áustria e Eslováquia) à lista de países visitados, que vai agora em 22. Seguindo a lógica de posts anteriores devia ir em 20, mas porque não contar Portugal se já fiz turismo lá dentro, e porque não contar a França mesmo que só lá tenha ido para trabalhar? Vale tudo para engrossar a lista, que o mundo é grande e a vida é curta.
Entretanto, está já planeada a próxima viagem, que será a última de 2017. Não adicionará nenhum país novo à lista, mas adicionará uma capital (outra contagem que me lembrei de fazer, e que vai em 16). O destino é Roma, será em período pré-natalício, e é claro que haverá um post a respeito.

sábado, 30 de setembro de 2017

Transfăgărășan

Desde que cheguei à Roménia, já lá vão mais de dois anos, que planeava visitar a Transfăgărășan, uma estrada que serpenteia ao longo de 90 quilómetros através das montanhas Făgărăș, nos Cárpatos (daí o nome), passando entre os picos mais altos do país, e que só está aberta ao trânsito entre Maio e Outubro por força dos rigores do Inverno. Passaram dois verões inteirinhos e, apesar de ter chegado a dizer "de agora não passa", passou. Foi preciso esperar pelo final do terceiro verão neste país para cumprir finalmente esse objetivo. Porém, ao contrário do que seria expectável, não fui lá para experimentar o prazer de conduzir pelas curvas apertadas daquela que, diz quem sabe (o elenco do programa da BBC Top Gear), é a melhor estrada do mundo. Fui lá para correr.

Transfăgărășan, na face norte dos Cárpatos. A estrada foi construída na década de 1970 a mando do ditador Ceausescu, com objetivos militares (tinha medo de uma invasão soviética) [Foto: Alberto Chaves]

Participei na Transmaraton, uma prova com corridas de 10 quilómetros (descendo uma das encostas), 21 (subir e descer), 42 e 50 (subir, descer, voltar a subir e voltar a descer). Fora de forma depois de 3 meses parado (há viroses lixadas), fiquei-me pelos 10 quilómetros, que bem medidos eram apenas 9. E se, como dizem, a estrada é boa para conduzir, para correr também não é nada má. Correr em asfalto pela montanha abaixo, com ar puro e bonitas paisagens (apesar de ser pelo lado sul, menos "fotogénico"), foi uma experiência deveras agradável.

Antes da corrida [Foto: Alberto Chaves]

De caminho, deu para admirar o lago glaciar Bâlea e, mais abaixo, o lago formado pela barragem Vidraru, bem como para visitar a cidade de Curtea de Argeș e a sua principal landmark - o mosteiro, datado de 1517 e conhecido por ser, desde 1914, a necrópole da família real romena.

Lacul Bâlea, a 2040 metros de altitude [Foto: Alberto Chaves]

Lacul Vidraru

Mănăstirea Curtea de Argeș

Quanto aos últimos tempos por Bucareste, é de destacar o regresso ao Muzeul Satului, dois anos após a primeira visita...



... e o facto de ter visto em concerto (e à borla) uma banda local que já andava pela minha playlist ainda antes de vir para a Roménia: Fanfare Ciocarlia.


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Sporting em Bucareste

Desde que vim para a Roménia, tornou-se habitual deitar um olho às trajetórias europeias dos clubes de futebol locais (que normalmente não são grande coisa), na vaga esperança de que algum aparecesse no caminho do Sporting. E, de preferência, um clube de Bucareste para não implicar grandes deslocações. Seria um sonho ver um jogo do Sporting ao vivo na cidade que me acolheu fora do meu país.
Um sonho que começou a ganhar forma na noite de 2 de agosto, quando o Steaua (ou FCSB) foi à República Checa golear o Viktoria Plzen por 4-1 em jogo da 2ª mão da pré-eliminatória da Champions League, depois de um empate caseiro a dois golos, e garantiu o apuramento para o play off onde já estava... o Sporting. Depois de uma conjugação algo improvável de resultados que colocou os dois clubes em lados diferentes do sorteio, a probabilidade de ver o Sporting em Bucareste era de 20% (5 equipas possíveis). "Acarditar". E o sorteio lá me fez a vontade: FCSB em Alvalade a 15 de agosto, Sporting na Arena Nationala de Bucareste na semana seguinte. 

Sporting em Bucareste, 23.08.2017: Piccini, Coates, Battaglia, Mathieu, Doumbia, Rui Patrício; Marcos Acuña, Adrien Silva, Fábio Coentrão, Gelson Martins e Bruno Fernandes. Foto: Página de Facebook do Sporting Clube de Portugal

Para temperar ainda mais este prato cheio, o Sporting permitiu uma igualdade a zero no seu reduto e adiou a decisão do apuramento (e o consequente prémio de 14 milhões de euros) para a segunda mão, em solo romeno, país onde os leões nunca haviam vencido ou marcado qualquer golo (foram 3 derrotas em 3 jogos com Poli Timisoara em 1990, Dinamo em 1991 e Vaslui em 2011). 
Instalado entre as cerca de duas centenas de adeptos leoninos no topo sul do estádio nacional romeno, tive o privilégio de ver o meu clube de sempre assinar uma das melhores exibições da época, sem ligar a estatísticas desfavoráveis, e garantir a presença na fase de grupos da maior competição de clubes da Europa. Doumbia, aos 13 minutos, abriu o marcador e colocou desde logo o Sporting em posição privilegiada na eliminatória.

Foto: Página de Facebook do Sporting Clube de Portugal

O tento de Maranhão, aos 20', pode ter assustado um pouco o adepto mais pessimista (eu), mas na segunda parte Marcos Acuña recolocou o Sporting em vantagem e acabou com as esperanças do Steaua/FCSB. Perante um adversário desmoralizado e que a partir do 1-2 se deu por vencido, Gelson Martins, Bas Dost e Battaglia deram contornos de goleada ao marcador e fixaram o resultado final em 1-5.


Um jogo de Champions visto ao vivo à porta de casa (salvo seja, que a Arena Nationala fica do outro lado da cidade), uma vitória gorda do meu clube e o orgulho de ser do Sporting vivido e demonstrado em solo estrangeiro. Uma noite futebolística para mais tarde recordar.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Por estes rios acima

O título do excelente álbum de Fausto, ainda que utilizado no plural para melhor se adequar, resume a mais recente viagem de fim de semana prolongado, à descoberta da ponta sudoeste da Roménia. Uma road trip de quase 400 quilómetros a partir de Bucareste, acompanhando, já perto do destino, o curso do Danúbio e, posteriormente, de um dos seus tributários: o rio Cerna. Uma região tranquila e de paisagens verdejantes, onde o segundo maior rio da Europa começa a conhecer o seu último país e estabelece a fronteira natural com a Sérvia. Uma região que, como escrevi no último post, me ficou na retina desde que ali passei de comboio a caminho de Budapeste, e me fez colocar uma cruzinha num mapa mental para ali voltar mais tarde. Aconteceu agora, dois anos depois.

Orșova, na foz do rio Cerna

A viagem tinha como destino principal Orșova, uma pequena cidade aninhada junto à foz do rio Cerna. Uma localidade que merece ser visitada, mais que não seja pelo cenário natural que a envolve. O lago que se forma onde o Cerna se funde com o Danúbio, causado pela presença da barragem das Portas de Ferro (Portile de Fier) 20 quilómetros a jusante, aliado à moldura composta pelos montes Almăjului fez-me lembrar Lugano (com as devidas diferenças), uma comparação reforçada pelo tempo chuvoso que se fazia sentir.

A marginal Bulevardul 1 Decembrie 1918, em Orșova

Mas se, por um lado, a barragem das Portas de Ferro deu a Orșova uma espécie de lago que acrescenta beleza à paisagem, por outro retirou-lhe a sua parte mais importante: o centro histórico. A parte antiga da cidade, cujas origens remontam aos tempos do Império Romano, foi submersa com a construção da barragem na década de 1970, pelo que a Orsova atual tem uma história relativamente recente e, por isso, pouco para oferecer em termos de património histórico. Uma caminhada pelo Parcul Dragalina, numa pequena península rodeada pelo Cerna e uma passagem pelo Mosteiro de Santa Ana, numa localização mais altaneira e com uma vista privilegiada sobre a cidade e o rio, e está a visita feita. 

Vista de Orșova a partir do Parcul Dragalina, com o Mosteiro de Santa Ana em destaque

É a cerca de 20 quilómetros de Orșova, junto às águas do Danúbio, que se encontra uma das principais atrações da região: a escultura de Decebal, o último rei da Dácia e herói na luta contra o Império Romano (o equivalente a Viriato na história local). Com os seus 55 metros de altura por 25 metros de largura, é a maior escultura em rocha da Europa e a sua execução reuniu uma dúzia de escultores ao longo de uma década (1994-2004).

Chipul lui Decebal

A poucas centenas de metros da escultura de Decebal encontra-se o Mosteiro Mraconia (séc. XVI), erigido no local de um antigo posto de observação na margem Romena do Danúbio.


Subindo pelo cénico vale do rio Cerna chega-se a Băile Herculane, uma estância termal encaixada entre os montes Mehedinți. A toponímia da cidade, fundada pelos Romanos no século II d.C. com o nome de Aqua Herculis, evoca Hércules que, reza a lenda, procurou estas paragens para banhos e descanso.

Estátua de Hércules no centro histórico Băile Herculane, ali colocada pelos Austríacos em 1847.

Após centenas de anos sob domínio otomano, os Austríacos conquistaram a região no século XVIII e redescobriram o seu potencial termal, fazendo renascer uma estância que o imperador austríaco Francisco José I chegou a considerar como a mais bela do continente europeu. Longe vão esses tempos (apesar de não terem passado nem 200 anos) em que Băile Herculane, então Herkulesbad, era uma das jóias do Império Austríaco e Austro-Húngaro. Hoje em dia, Băile Herculane é uma sombra decadente desses tempos idos. Apesar de continuar a ser um destino turístico, sobretudo doméstico, devido às propriedades terapêuticas das águas termais, grande parte da herança histórica e arquitetónica do período imperial encontra-se degradada e votada ao abandono. 

Edifício de banhos termais do Império Austríaco, datado de 1886, uma das pérolas arquitetónicas de Băile Herculane, abandonada aos rigores do tempo. A ponte pedonal em ferro sobre o Cerna, construída na mesma altura, foi tomada pela ferrugem e está encerrada.

O roteiro da viagem incluiu também a cidade de Drobeta-Turnu Severin, que serviu como dormitório (e refeitório) devido ao esgotar da capacidade hoteleira em Orșova. Do pouco que foi possível ver, de passagem, parece ser uma cidade sem grande beleza ou pontos de interesse, apesar de ser banhada pelo Danúbio.
Ali perto, do outro lado do rio e com um posto fronteiriço na barragem das Portas de Ferro, fica a Sérvia, infelizmente não incluída no programa. Um novo carimbo no passaporte esteve a um quilómetro de distância. Terá de ficar para outra altura...

A Sérvia ali tão perto...

Também incluída do roteiro, por ser um local de passagem, Craiova mereceu uma breve visita. Do pouco tempo ali passado, fica a ideia de uma cidade em obras para se apresentar de cara lavada. Alguns resultados já podem ser vistos, como por exemplo a Strada Panait Mosoiu e a Strada Fratii Buzesti, transformadas em ruas pedonais ornamentadas com estátuas e street art. O Palatul Administrativ, o edifício da Universidade e o semi-selvagem Parcul Nicolae Romanescu são outras landmarks de interesse daquela que é a sexta maior cidade da Roménia.

Estátua na Strada Fratii Buzesti, em Craiova

Entretanto, está já planeada uma nova viagem. Tanto aqui falei no Danúbio que daqui a umas semanas vou poder vê-lo outra vez, várias vezes. Será em Budapeste, Bratislava e Viena. Haverá certamente um post a esse respeito, em momento oportuno.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

De volta às montanhas

Enquanto rapaz da Serra, é-me bastante agradável qualquer deslocação às montanhas. Sinaia e Busteni foram o destino da mais recente visita aos Cárpatos, localidades já visitadas anteriormente mas às quais é sempre bom voltar, para respirar o ar fresco e puro da montanha e fugir às temperaturas tórridas que por esta altura assolam Bucareste.


De Sinaia fica o agradável piquenique no parque Ghica e a minha terceira visita ao Palácio Peles, um edifício que parece exibir, a cada visita, um novo ângulo para ser admirado e fotografado.

Palácio Peles, terceira visita e centésima fotografia (para aí). Nunca é demais.

O destino principal da viagem era, no entanto, Busteni, para cumprir um objetivo há muito desejado e que já havia tentado na minha última deslocação a esta localidade, sem sucesso: subir ao topo das montanhas, onde se encontra a Cruz dos Heróis (Crucea Eroilor), um monumento de homenagem às vítimas da Primeira Guerra Mundial.
Contrariamente ao que aconteceu em novembro passado, desta vez encontrei o teleférico a funcionar, mas com uma fila de espera digna de uma repartição de finanças. Ao todo foram 2 horas e 50 minutos de seca e 10 minutos de subida com vistas dramáticas sobre os penhascos. Três horas, portanto, para chegar lá acima. Mais demorado que ir a pé (comprovado por um companheiro de viagem que demorou pouco mais de 2 horas).

Telecabină Busteni-Babele. 10 minutos até lá acima, quase 3 horas para tirar bilhete.

A subida por telecabină termina em Babele, perto de um penedo icónico a que chamam de Sfinxul (a Esfinge), mas que em nada se assemelha aos míticos leões com cabeça humana do Antigo Egipto. 

Uma espécie de esfinge

No entanto, se as formações rochosas não impressionam por aí além, já as vistas que se obtêm a partir daquele ponto, a 2216 metros de altitude, são espectaculares. Não vale a pena adjetivar mais, as fotografias falam por si.




Sim, andam ali ovelhas. Centenas delas

A Crucea Eroilor está a cerca de uma hora de caminhada de distância, a partir de Babele, e obriga a subir mais um pouco. Os (quase) 2400 metros de altitude atingidos pelo caminho constituem agora um record pessoal, já que nunca tinha andado a tais altitudes.

Mais alto que os 2291 metros da Cruz dos Heróis

Para o regresso a Busteni, nova viagem de telecabină e, por conseguinte, nova fila e nova espera de quase 3 horas. Seis horas de um domingo desperdiçadas em filas de teleférico mas, como nem tudo tem de ser mau mau, fica a lição: em fins de semana estivais, metade das 3 milhões de almas que habitam Bucareste vai à praia (Mamaia, sobretudo), a outra metade vai às montanhas (por uma questão de proximidade, Sinaia, Busteni e redondezas), portanto há que evitar locais potencialmente concorridos.

Entretanto, está já planeado outro fim de semana fora da capital (há que aplicar o lema "niciun weekend acasa" sempre que possível). O destino será Orșova, nas margens do Danúbio, junto à fronteira com a Sérvia. Uma região que me ficou na retina desde que ali passei de comboio a caminho de Budapeste e que agora, dois anos mais tarde, terei oportunidade de visitar. É possível que haja um post a respeito, com a regularidade que se conhece (daqui a 2 meses, portanto).

P.S. Ainda a respeito da ida às montanhas, e dado que eu ando sem grande paciência para redigir narrativas extensas, recomendo a leitura deste post do Cartas de Bucareste, o melhor blog sobre Bucareste e a Roménia que por aí anda.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Santorini

A saga do viajante solitário pode ter chegado ao fim, mas isto das viagens é para continuar. E para iniciar este novo capítulo, não poderia haver melhor destino: a mais visitada, a mais fotografada, a mais famosa, a mais romântica das ilhas gregas - Santorini.



Qualquer fotografia passada pelo Photoshop que se encontre online ou em brochuras turísticas não faz justiça à beleza desta ilha das Ciclades. Santorini é um local encantador, de beleza singular, com falésias majestosas e escarpadas precipitando-se abruptamente sobre o mar, encimadas por vilarejos pitorescos de casinhas alvas, de um branco que fere a vista e que, ao longe, pode dar a ideia de neve a um olhar mais fugidio e desatento. As vistas abrangentes sobre a caldeira vulcânica a partir do topo dos penhascos mostram o casamento perfeito entre as cores que dominam a palete cromática da ilha - o branco das construções e as diferentes tonalidades de azul do céu e do mar, com as falésias de permeio.

A palete cromática de Santorini

Apesar de ser um local casado com o mar, a origem vulcânica da ilha e a sua geografia costeira fazem com que Santorini não se destaque pela sua oferta balnear. As praias de areia negra de Kamari e Perissa são as melhores opções para quem dali não queira sair sem dar um mergulho nas águas do Mar Egeu.

Praia de Perissa... 

... e praia de Kamari, do outro lado do rochedo.

Entre as povoações da ilha, merecem especial destaque a capital Fira e as ruelas estreitas do seu centro histórico, plenas de comércio, e Oia, também de ruas pitorescas e com vistas espetaculares sobre o mar.

Vista sobre Fira

Oia

Oia outra vez. 

Oia novamente. Certamente a localidade mais fotogénica de Santorini.


Imerovigli, entre Fira e Oia

Além da ilha principal, denominada Thira, Santorini engloba ainda o vulcão extinto de Nea Kameni e à ilha de Thirassia, locais que podem ser visitados em cruzeiros de um dia.

Cruzeiro rumo ao vulcão extinto de Nea Kameni

Oia vista a partir do mar

O pôr do Sol, também ele um cartão de visita da ilha, é realmente impressionante e cria um ambiente romântico... desde que se exclua do quadro as centenas de turistas que se acotovelam para conseguir o melhor ângulo. E é aqui que começa a faceta menos positiva de Santorini. Por detrás da beleza paisagística, está a realidade nem sempre agradável de um hotspot turístico, que retira algum (muito) encanto ao local.

O famoso pôr do Sol em Oia, Santorini

Há um ano, após visitar a menos conhecida ilha de Aegina, escrevi que esse local "reúne os encantos que acredito serem comuns a todas as ilhas gregas: tranquilidade, vilas pitorescas, praias de águas límpidas e boa comida. Uma espécie de paraíso na Terra". Foi uma generalização errada, já que em Santorini não encontrei esse ambiente bucólico, relaxado, tranquilo, mas antes um local muito virado para o turismo e, consequentemente, demasiado caro e com demasiado movimento. Recorrendo a dois vocábulos da língua inglesa, Santorini acaba por ser um destino overrated e overcrowded. Mas não deixa de valer a pena, especialmente quando visitado em boa companhia.

Frozen yogurt com vista para Fira

Falta só referir a parte inicial da viagem: para chegar a Santorini a partir de Bucareste houve necessidade de fazer escala em Atenas por algumas horas. Uma segunda passagem pela capital grega, que permitiu revisitar pontos importantes como a Praça Syntagma, a zona histórica de Plaka e a área comercial de Monastiraki.

Vista para a Acrópole a partir de Plaka