sábado, 31 de março de 2018

Uma viagem, duas capitais

Berlim é um destino acessível a partir de Bucareste, a apenas 2 horas de voo low-cost. Praga é acessível a partir de Berlim, distando 350 quilómetros por auto-estrada. Somando estas duas premissas, obtém-se como resultado uma viagem às capitais alemã e checa, duas cidades que há muito pediam uma visita (especialmente a segunda).

Berlim

O primeiro contacto com Berlim tem como palco a Alexandrerplatz. É quase inevitável que assim seja, já que é ali que vão dar as rotas de transporte público desde os aeroportos, havendo ainda uma estação ferroviária e também a principal estação da rede de metro (U-Bahn), o que faz desta praça uma espécie de sala de visitas da capital alemã. Juntando a isto a existência de numerosos espaços comerciais, obtém-se um bulício constante, o que torna a "Alex", como os berliners lhe chamam, um dos pontos com mais vida na cidade.

Alexanderplatz (estação ferroviária e torre de televisão)

A Alexanderplatz é dominada pela Fernsehturm (torre de televisão), uma estrutura de 368 metros (a mais alta da Alemanha) construída em 1969 para simbolizar o comunismo e que se tornou um símbolo da própria cidade. Outra estrutura que se destaca nesta praça central, pela sua dimensão e estado devoluto em pleno centro de uma concorrida capital europeia, é a Haus der Statistik, um edifício dos anos 1960 que serviu como centro de estatísticas e arquivo até ser abandonado em 2008. Na fachada que confronta a Alexanderplatz surgiu entretanto uma mensagem, significativa para uma cidade que, na ressaca da Segunda Guerra Mundial e no decorrer da Guerra Fria, esteve dividida durante três décadas (entre 1961 e 1989).

Stop wars. A mensagem de um edifício devoluto da antiga Berlim Oriental para a Alexanderplatz dos dias de hoje.

A Alexanderplatz é também um bom ponto de partida para explorar o centro (Mitte) de Berlim. Seguindo na direção do rio Spree e passando pela Rathaus (câmara municipal), Neptunbrunnen (Fonte de Neptuno) e St.Marienkirche (Igreja de Santa Maria), chega-se à Museumsinsel, ilha dos museus, onde se destaca, além dos vários museus que lhe dão o nome, a Catedral de Berlim (Berliner Dom).

Câmara municipal (Rathaus) e Fonte de Neptuno


Catedral de Berlim vista a partir das margens do rio Spree. Lá atrás, a omnipresente Fernsehturm

Cruzando novamente o Spree pela Schlossbrücke, tem início a Unter den Linden, a principal avenida da cidade e antigo caminho real, que se estende desde o local onde outrora existiu o Palácio de Berlim (Berliner Schloss, construído no século XV, demolido em 1950 e atualmente a ser reconstruído, estando a sua conclusão prevista para 2019) até outro dos símbolos da capital germânica -  a Porta de Brandemburgo. Este era um dos pontos em que a cidade se dividia em duas pelo Muro de Berlim, mas sem que a Porta servisse como divisão, pelo que este monumento esteve isolado e vedado ao tráfego até à queda do muro, em 1989. 

Porta de Brademburgo fotografada durante a blue hour. Esta antiga entrada da cidade foi construída em 1791 e era utilizada pelo rei da Prússia para aceder ao atual parque de Tiergarten, então uma área de caça.

Também anónimo desde o pós-guerra até à reunificação alemã esteve o vizinho edifício do parlamento (Reichstag), que depois de ser destruído durante a II Guerra Mundial, só viria a ser restaurado e a recuperar as suas funções em 1999 - o parlamento da Alemanha de Leste reunia no Palast der Republik, que existiu até 2009 no local do antigo Palácio de Berlim, enquanto o Parlamento da Alemanha Ocidental estava sediado em Bonn.

Reichstag

Outro ponto evocativo dos tempos da Guerra Fria é o Checkpoint Charlie, no cruzamento da Friedrichstrasse com a Zimmerstrasse. Mais não é do que uma réplica do famoso posto militar que servia de fronteira entre as duas Alemanhas, outrora um dos locais onde se fechava a Cortina de Ferro, hoje uma atração turística onde, claro, se circula livremente.
Não muito longe dali, situa-se Gendarmenmarkt, certamente a praça mais bonita de Berlim. Um espaço concebido em finais do século XVII, de arquitetura harmoniosa, com duas catedrais bonitas e idênticas em cada lado, a Französischer Dom (Catedral Francesa) e a Deutscher Dom (Catedral Alemã), encimado pela majestosa Konzerthaus.

A icónica placa junto ao Checkpoint Charlie (passar por aqui teria tido mais piada entre 1961 e 1989)

Gendarmenmarkt (Deutscher Dom e Konzerthaus)

A visita a Berlim foi algo curta (pouco mais de 24 horas), mas ainda assim suficiente para contactar com a história atribulada de uma das cidades mais relevantes no panorama internacional do século XX. Teria sido desejável um pouco mais de tempo, já que ficou a faltar, entre outras coisas, uma melhor exploração do Tiergarten, uma ida à East Side Gallery com o pouco que resta do Muro de Berlim, à vizinha Oberbaumbrücke e, para um fã de desporto, ao Estádio Olímpico. Mas deu para o essencial, e era chegada a hora de rumar a Praga.

Praga

Depois de uma viagem de 4 horas por auto estrada, via Dresden, num autocarro de categoria (grande Regiojet) com ecrãs individuais em cada assento para entretenimento do passageiro (encontrei por lá The Division Bell dos Pink Floyd, que serviu de banda sonora durante uma parte do trajeto), eis Praga. Um primeiro contacto que, perante a hora tardia, se resumiu à estação de Florenc e à procura do alojamento, algures em Žižkov. A descoberta da cidade começaria, por isso, só no dia seguinte, tendo como ponto de partida a Praça da República (Náměstí Republiky), porta de entrada do centro histórico. A Casa Municipal (Obecní dům) é um bom cartão de visita e, logo ao lado, a Torre da Pólvora (Prašná brána), antiga porta da cidade, oferece desde o seu topo uma bela panorâmica de Praga. Começar a visita por ali é admirar primeiro a cidade a partir do alto, e só depois partir à descoberta das ruas do centro histórico que de lá se avistam.

Centro histórico de Praga visto a partir da Torre da Pólvora

É na Torre da Pólvora que tem início o chamado caminho real (Královská cesta), um trajeto outrora percorrido pelos reis checos, que atravessa o centro de Praga e culmina no castelo. O primeiro troço, pela rua Celetná, conduz à Praça da Cidade Velha (Staroměstské náměstí), ponto nevrálgico da cidade, dominado pela igreja gótica de Týn e as suas características torres pontiagudas. Consta que há também por ali um famoso relógio astronómico do século XV mas, para meu azar, fui dar com a torre da Câmara Municipal da Cidade Velha, onde ele deveria estar, embrulhada em andaimes. Tinham de lhe fazer a manutenção logo agora, pois então.

A estátua de Jan Hus a contemplar a Igreja de Tyn

Era suposto estar ali um relógio astronómico

Ultrapassada a desilusão do relógio com a saborosa ajuda de um Trdelník (o equivalente checo do Kürtőskalács húngaro), havia que regressar ao caminho real, que dali continua pela rua Karlova, fazendo a ligação à mais famosa landmark de Praga - a ponte Karlův, sobre o rio Vltava. Batizada em honra do rei boémio Carlos IV, que a mandou construir em 1357, esta ligação pedonal entre Staré Město (a Cidade Velha), na margem oriental, e Malá Strana (a Cidade Menor), na margem ocidental, é o coração e alma da capital checa. Local de passagem obrigatória para quem visita, é também um ponto de concentração de artistas de rua, que acrescentam sonoridade, cor e vida a um sítio já de si imponente e ornamentado, e de onde se obtêm as melhores vistas sobre as duas margens do Vltava.

Ponte Karluv e uma bonita vista sobre Malá Strana e o castelo, na outra margem do Vltava

Em Malá Strana ergue-se, imponente, no topo da colina de Hradčany, o Castelo de Praga (século IX). Com uma área total de 70 mil metros quadrados, este complexo, que inclui também a Catedral de São Vito e o antigo Palácio Real, é considerado o maior castelo antigo do mundo. 

Rua Mostecká, em Malá Strana. Ao fundo, uma das torres da Igreja de São Nicolau

Catedral de São Vito

Parece que do alto dos 102 metros da torre principal da catedral de São Vito, que já de si se encontra numa posição altaneira, se obtêm vistas abrangentes sobre a cidade. Infelizmente, cheguei lá já fora das horas de visita e não pude constatar se assim é. E isso pode muito bem ter acontecido porque, ao passar pela entrada do castelo, achei que o castelo não era ali e continuei pela rua Loretánská acima, seguindo as placas que indicavam "Strahovský klášter" e presumindo que "klášter", pela semelhança na grafia, significava "castelo"... Vim a descobrir que afinal era um mosteiro. Mas ainda assim, a caminhada adicional valeu a pena, pelas vistas que de lá se obtêm. Perdi a vista de São Vito, ganhei esta.

Praga banhada pelo Sol, vista a partir do Mosteiro (e não castelo) Strahovsky

Ao admirar outra bela panorâmica, a partir da escadaria que liga o castelo a Malá Strana, percebi que, além do Trdelník, Praga tem outras semelhanças com Budapeste que saltam à vista. Em ambas as capitais há uma praça central na margem direita, dominada por uma igreja (praça Staroměstské e Igreja de Týn em Praga, Praça e Basílica de St. István em Budapeste), com continuidade até aos respetivos rios, onde uma bonita ponte (Karlův most na capital checa, Széchenyi Lánchíd na capital húngara) faz a ligação com a margem esquerda, na qual se ergue um majestoso castelo (Castelo de Praga versus Castelo de Buda). E, perante todas estas parecenças, fica difícil eleger uma favorita entre estas duas cidades. Gosto bastante de ambas, e fica assim.

Vista sobre Praga ao entardecer, a partir da escadaria do castelo

Havia ainda tempo para ir a Vyšehrad (onde há outro castelo) e explorar melhor o centro histórico, incluindo a praça Václavské, mas o último dia em Praga trouxe uma chuva intensa que comprometeu esses planos (se mais semelhanças com Budapeste fossem necessárias, eis outra - tempo chuvoso). Uma breve visita à casa dançante de Frank Gehry (Tančící dům) e uma curta passagem pelo mercado de Havel, um dos mais antigos da cidade (data de 1232), foi a exploração possível, antes de procurar abrigo da chuva incessante num centro comercial da Praça Republiky.

Praga num dia chuvoso (vista do Castelo e Ponte Karluv sobre o Vltava, a partir da marginal Smetanovo nábřeží

Ainda assim, só posso dizer que foi um prazer conhecer Praga. Uma cidade encantadora, com uma história rica e vasta (foi fundada no século VII) contada por uma herança arquitetónica impressionante, que vai do românico ao gótico, passando pelo barroco, classicismo e art noveau, e que felizmente escapou à destruição das guerras que assolaram a Europa no século XX. É uma cidade à qual não me importaria de voltar, uma e outra vez.

A segunda fotografia deste post captada durante a blue hour. Ponte Karluv, na direção do castelo

Perspetiva noturna da Staroměstské náměstí

Nürnberg

Nem só de Berlim e Praga se fez esta viagem. O facto de haver um voo de regresso muito mais barato a três horas e meia de distância foi justificação suficiente para empreender uma nova viagem de autocarro, com destino a Nürnberg. Além de poupar dinheiro com o voo, havia ainda o bónus de poder visitar mais uma cidade, ainda que com tempo limitado. De referir que a rota de regresso à Alemanha passou por Plzen, cidade onde o Sporting viria a jogar dois dias mais tarde. Perderam o jogo mas passaram a eliminatória, pelo que não percebi se a minha passagem por lá deu sorte ou azar...
Da breve visita a Nürnberg, destaca-se a passagem pela Schuldturm (torre da prisão medieval, datada do séc. XIV) junto ao rio Pegnitz, e pela margem norte, nas imediações do hospital Heilig-Geist (também do séc. XIV) e da Hauptmarkt, antiga Praça Adolf Hitler, nos tempos em que esta cidade era um bastião nazi. Voltando atrás pela Museumsbrücke e seguindo pela Königstrasse chega-se a outra praça central, a Lorenzerplatz, onde se situa um dos símbolos da cidade - a igreja gótica de St. Lorenz (séc. XIII). E foi só isto, pois havia ali uma estação de metro convenientemente localizada para rumar ao aeroporto, e já se fazia tarde.

Schuldturm

Hospital medieval Heilig-Geist, visto a partir da Museumbrucke

Nürnberg consegue manter, de algum modo, a atmosfera de típica cidade medieval germânica, ainda que na realidade praticamente tudo o que está à vista seja posterior a 1945, já que 90 por cento da cidade foi destruída no decorrer da II Guerra Mundial. Esta é, por isso, uma cidade reerguida das cinzas e um belo exemplo de reabilitação e reconstrução mantendo a traça original dos edifícios.

Konigstrasse e Igreja de St. Lorenz

Assim se resume a história da primeira viagem a sério de 2018. E como, com viagens, mais nunca é demais, daqui a uma semana já há outra, também ela internacional e enriquecedora do meu travel map. Daqui a um mês ou assim sou capaz de falar aqui sobre isso.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Primeira viagem internacional do ano

Faz agora dois anos, por ocasião da viagem à Bulgária, escrevi aqui que parecia mal ter outro país a 75 quilómetros de distância e ainda não ter ido lá. Mas a verdade é que, depois disso, nunca mais lá voltei. Já faz lembrar os tempos em que residia em Portugal, tinha Espanha a menos de uma centena de quilómetros e pouquíssimas foram as vezes em que lá fui. Aproveitando esta proximidade, que se proporciona a uma day trip, encetei a primeira viagem internacional de 2018, atravessando a Ponte da Amizade sobre o Danúbio com destino à cidade fronteiriça de Ruse.

Fronteira de Giurgiu-Ruse, entre a Roménia e a Bulgária

Ruse é a quinta maior cidade da Bulgária, com 150 mil habitantes, situada na margem sul do Danúbio, fronteira natural entre a Roménia e a Bulgária, e em cuja estação ferroviária passei uma seca de uma hora e tal nessa viagem de há dois anos (não vi nada, evidentemente). Uma cidade que, tal como Chernivtsi, na Ucrânia, é chamada de Little Vienna, pelos edifícios de arquitetura neo-barroca dos séculos XIX e XX. E se no caso de Chernivtsi a comparação até se compreende, até porque foi parte do Império Austro-Húngaro, colocar Ruse ao lado de Viena já é um bocadinho forçado. Pode haver na primeira um ou outro elemento arquitetónico que lembre a segunda, e ambas são banhadas pelo mesmo rio, e as semelhanças ficam-se por aí. Apesar dos vários séculos de história, Ruse revela-se um local com reduzidos pontos de interesse, cenário que piora se a visita acontece num dia chuvoso e frio.

Rua Alexandrovska

Se, alimentando essa comparação forçada, Ruse é uma pequena Viena, a Rua Alexandrovska é a sua Grabenstrasse (uma parente muito, muito pobrezinha). Principiando na Praça Aleksander Batenberg, antigo centro da cidade, onde se destacam os edifícios da Biblioteca Lyuben Karavelov e do Museu Regional de História, esta artéria exibe a traça arquitetónica que vale a Ruse a comparação com a capital da Áustria. A Rua Alexandrovska conduz até à Praça da Liberdade (Svoboda), coração da cidade, onde se ergue um dos símbolo de Ruse: o Monunento da Liberdade, uma estátua de 17 metros datada de 1909. O outro ex-libris local fica logo ao lado - o edifício Dohodno Zdanie, construído em inícios do século XX para servir como teatro.

Biblioteca Lyuben Karavelov

Monumento da Liberdade, na Praça Svoboda

Falta falar da frente fluvial, uma área pouco desenvolvida, de aspeto pós-soviético soturno e decadente. O Danúbio é aqui um recurso turístico desaproveitado, já que uma zona marginal devidamente valorizada e requalificada poderia dar, do ponto de vista do turismo, um outro valor à cidade.

O Danúbio em Ruse

Entretanto, e falando em viagens internacionais a sério, Março vai começar com a adição de mais dois países ao travel map (e mais duas capitais). É um início um pouco tardio de um ano que, no entanto, se espera novamente rico em viagens. Haverá posts a respeito, se e quando me der vontade de escrever.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Fim de semana nas montanhas

Janeiro é, para quem está em Bucareste, mês de visita obrigatória às montanhas. Especialmente se, como sucedeu este ano, o inverno na capital for fraquinho, com neve escassa e temperaturas que nem chegam aos 10 graus negativos. A obrigatoriedade cumpriu-se com um fim de semana prolongado em Moieciu de Sus (ou Moieciu de Cima, por contraposição a Moieciu de Jos, ou de Baixo, onde decorreu o team building de há dois anos).


Um tempo agradável passado na tranquilidade das paisagens rurais, pintadas de branco pela neve incessante, resume a história do fim de semana, que incluiu também novas passagens por Bran e Râșnov.

Moieciu de Sus

Moieciu de Sus

Castelo de Bran

Strada Republicii, em Râșnov

De Râșnov, ficou um episódio algo caricato: julgando ter deixado o carro bem estacionado, fui encontrar um papelinho da polícia local no pára-brisas, onde se lia que não senhor, a viatura não estava bem estacionada, porque estava a menos de 25 metros de uma passadeira, e que em face desta infração deveria apresentar-me na esquadra. Parece que ali, sendo um local de influência germânica (a cidade tem também, à semelhança de Brasov ou Sibiu, um topónimo alemão - Rosenau), a mentalidade é diferente comparativamente a Bucareste, e as regras de trânsito são para cumprir.
Lá fui, a preparar-me psicologicamente para a multa que aí vinha. Para meu alívio, tal infração não dá direito a multa, mas antes à retirada de 2 pontos na carta de condução. Ou, neste caso, nem isso. Ao deparar-se com o meu cartão de cidadão português, compacto e com chip, o agente de serviço exclamou "é a primeira vez que vejo uma coisa destas", virou-o, revirou-o, queixou-se que a carta de condução até é parecida com a romena (modelo europeu) mas que o bilhete de identidade nada tem a ver, e acabou por dizer "pá, hoje é domingo e não estou para me chatear com documentação estrangeira, vai-te lá embora". Viva Portugal e os seus cartões de cidadão vanguardistas.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Sibiu, Alba Iulia, Târgoviște

2017 terminou da mesma forma que havia começado: a descobrir mais um bocadinho da Roménia. A última viagem do ano, aproveitando a quadra natalícia, teve como destino as cidades de Sibiu e Alba Iulia, no coração da Transilvânia.


Strada Cetății, a rua mais bonita de Sibiu segundo uma placa que por ali se encontra

No caso de Sibiu tratou-se de uma redescoberta (terceira visita), para conhecer uma versão diferente da cidade capital europeia da cultura em 2007: vestida com cores de inverno, e com o seu acolhedor centro histórico ornamentado pelo nacionalmente famoso mercado de natal, ou Târgul de Craciun (que, valha a verdade, apesar de ter a sua piada e de se enquadrar bem na central Piața Mare, nada tem de extraordinário face a outros eventos similares).

Mercado de Natal de Sibiu.

Além da novidade de explorar Sibiu em versão invernal, esta visita permitiu ainda cumprir algo que ficou por fazer nas duas visitas anteriores: subir ao topo da torre da Catedral Luterana. A subida, feita por uma escadaria íngreme de madeira com 160 degraus, que dá a ideia de poder ceder a qualquer momento, não é a mais fácil, mas é compensadora: lá do alto dos seus 74 metros, obtêm-se vistas abrangentes sobre toda a cidade e arredores.


Sibiu vista a partir do topo da torre da Catedral Luterana.

Outra coisa que continua por cumprir é ir refastelar-me ao Old Lisbon, que já foi o único restaurante Português em toda a Roménia (entretanto apareceu outro em Bucareste, onde também ainda não pus os pés). Terá de ficar para uma eventual quarta visita

Os "olhos de Sibiu": uma característica peculiar da arquitetura medieval presente na cidade faz com que as casas pareçam ter olhos nos telhados.

Umas dezenas de quilómetros a noroeste de Sibiu, outra cidade histórica, pitoresca e bem conservada convida a uma visita, para conhecer a maior fortaleza da Roménia. Trata-se de Alba Iulia e do seu ex-libris, a Cetatea Alba Carolina. Este complexo defensivo, em forma de estrela com sete bastiões (um pouco a fazer lembrar Almeida), data de 1715 e a sua construção foi responsabilidade do imperador austríaco Carlos VI (daí o nome), quando a Transilvânia era parte do Império Habsburgo, tendo por objetivo defender a cidade de ataques otomanos. Tem a particularidade de se situar no local onde, nos tempos do Império Romano, existiu Apulum, então uma das cidades mais importantes da Dácia.  Uma boa forma de admirar esta fortaleza é fazer o percurso pedonal pelo exterior, junto à muralha, que tem uma extensão total de três quilómetros.

Vista da Cetatea Alba Carolina a partir da Piata Tricolorului, com uma bandeira a condizer. Em destaque, o campanário da Catedrala Încoronării (à esquerda) e a torre da Catedral de São Miguel, datada do séc. XIII (à direita).

Além de chamar para si o estatuto de "cea mai mare cetate", Alba Iulia considera-se também "cealalta capitala", ou a outra capital. Uma capital simbólica (que já o foi na realidade, entre 1570 e 1692 enquanto capital do Principado da Transilvânia), sobretudo por ter sido ali que se oficializou a união da Transilvânia, juntamente com as províncias de Banat, Bucovina e Bessarabia, ao Reino da Roménia, a 1 de dezembro de 1918, após o término da Primeira Guerra Mundial (data atualmente celebrada como feriado nacional). Foi também nesta cidade que ocorreu, em 1922, a coroação simbólica de Ferdinand I (a título de curiosidade, neto da rainha D. Maria II de Portugal) como o rei da Roménia unida com as referidas províncias. Para celebrar a união e receber a coroação, ergueu-se outra das landmarks locais: a Catedrala Încoronării.

Catedrala Încoronării.

Alba Iulia é também uma cidade de contrastes. Deixar as ruas medievais da restaurada e organizada cetatea e sair pela Piața Tricolorului, em direção ao Parcul Unirii, equivale a fazer uma rápida viagem no tempo até à segunda metade do século XX. Aqui, é visível a marca do período comunista, desde os tradicionais blocos monolíticos de apartamentos até aos elementos que caracterizam o parque, como a fonte ou os arcos que ornamentam a entrada, junto à Piata Unirii. Este é, possivelmente, um dos locais da Roménia onde mais se sente a herança do comunismo.

Parcul Unirii, certamente um dos locais mais "soviéticos" da Roménia.

Entretanto, começou um novo ano e já houve uma viagem inaugural, ainda que curta. O destino foi Târgoviște, outra antiga capital (neste caso, da Valáquia, entre 1418 e 1659, tendo então perdido esse estatuto para Bucareste). 
O ponto incontornável da cidade é formado pela Curtea Domnească, um complexo defensivo do séc. XV que foi também local de residência do governante (voievod) do Principado da Valáquia, ou Țara Românească (atual sul da Roménia). Este conjunto monumental é dominado pela Torre Chindia, símbolo da cidade, cuja construção se deve a um dos mais célebres voievozi da Valáquia, Vlad III, ou Vlad Țepeș.

Curtea Domnească de Târgoviște. Ao fundo, a Torre Chindia, símbolo da cidade.

Vista da cidade a partir da Torre Chindia

Entretanto, e sendo este o primeiro post de 2018, é oportuno deixar aqui uma retrospetiva de 2017, para que, sempre que venha aqui ler isto, recordar o que marcou o ano.
Pois bem, 2017 foi mais um ano memorável (mas não tanto como o anterior) passado em terras de além-Cárpatos e, pontualmente, por outros locais da Europa. Houve viagens internacionais - desde logo, o regresso marcante à Suíça natal, 20 anos depois (e o fim da bonita saga do lonely traveler), e também Santorini (com nova passagem por Atenas), Roma e três das capitais do Danúbio (Budapeste, Bratislava e Viena), para além da obrigatória ida a Portugal - que permitiram adicionar três novos países (Suíça, Áustria e Eslováquia) ao meu travel map; houve, também, viagens intra-fronteiras - Predeal e montes Iezer a abrir o ano, Brasov (quarta visita) para correr mais uma meia-maratona, Neptun, Busteni (com subida a Babele e à Cruz dos Heróis), Orsova e Baile Herculane (com passagem por Craiova), Transfăgărășan (finalmente!) para fazer uma corridita de quase 10 km e, por último, Sibiu e Alba Iulia.
Extra-viagens, 2017 fica na memória pelos concertos - Bucovina no Hard Rock Cafe (primeira vez que lá entrei, ao fim de quase 2 anos em Bucareste), Apocalyptica na Sala Palatului e Sólstafir num clube ali para os lados de Grozavesti - e pela oportunidade única que foi ver o Sporting a jogar (e a golear) na Arena Nationala para a Champions League.

Sólstafir!

O ano fica ainda marcado por uma mudança de emprego, que me fez ficar (ainda) mais confortável na capital romena. No horizonte de 2018 não há planos para me ir embora. Ainda bem, sempre é mais fácil ir preenchendo o travel map a partir daqui.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma viagem a Roma

Há destinos turísticos que, mesmo não estando no topo das prioridades, são de visita obrigatória, pela importância que representam a nível histórico, cultural, social, político. Um desses destinos é Roma, a capital de Itália que já foi caput mundi, ou capital do mundo, enquanto centro de um vasto império, e que encerra em si uma História documentada superior a 2500 anos. Além disso, e falando no que realmente interessa, ir a Itália nos dias que correm é fácil e barato. Portanto, não há motivos para não visitar a chamada Cidade Eterna.

Vista de Roma a partir do topo da Scalinata dell'Aracoeli

No centro nevrálgico da capital moderna, resiste parte da construção majestosa que marcava também o centro da capital antiga - o Anfiteatro Flaviano (séc. I), comummente chamado Coliseu de Roma. Antigo palco de lutas de gladiadores e outros espetáculos durante os tempos áureos do Império Romano, o Coliseu subsiste como símbolo histórico da era imperial sendo, simultaneamente, um símbolo turístico de Roma e de Itália.


Coliseu visto por fora...
... e por dentro

O Coliseu é também um bom ponto de partida ideal para explorar a herança histórica de Roma. Nas imediações encontra-se o Arco de Constantino (séc. IV) e, ao longo da Via dei Fori Imperiali, distribuídas por ambos os lados, as ruínas do Foro Romano, coração da Roma Antiga, e dos fóruns imperiais de César, Nerva, Augusto e Trajano.

Arco de Constantino visto a partir do interior do Coliseu


Via dei Fori Imperiali. Ao fundo, o Coliseu.


Foro Romano

Estátua do imperador Trajano, de costas para o fórum imperial que mandou construir no ano 106

A Via dei Fori Imperiali conduz à Piazza Venezia, dominada pelo Altare della Patria, um monumento do sec. XIX em honra de Vitorio Emanuele II, primeiro rei da Itália unificada. Continuando pela Via del Plebiscito e depois pelo Corso Vitorio Emanuele II e Corso del Rinascimento, surge uma das mais célebres praças de Roma: a Piazza Navona, com as suas três fontes (Fiumi, Moro e Nettuno) e a igreja Sant'Agnese in Agone (século XVII).

Altare della Patria

Igreja de Sant'Agnese in Agone e Fontana dei Fiumi, na Piazza Navona

Seguindo em direção ao Tibre, encontra-se a ponte de Sant'Angelo e, já na margem direita do rio, o castelo homónimo (séc. II). A partir daqui, a Via della Conciliazione dá acesso à Cidade do Vaticano, considerado o mais pequeno estado independente do mundo.


Castelo Sant'Angelo


Via della Conciliazione, em direção à Praça de São Pedro (Vaticano)

Podia adicionar aqui mais um país ao meu travel map, mas não considero o Vaticano como tal. É como se fosse apenas mais um bairro de Roma. Merece ser visitado pela beleza e sumptuosidade da Praça de São Pedro e da Basílica dedicada ao mesmo santo e, para quem ligar a isso, pelo simbolismo que estes locais carregam para a religião católica. Há também a Capela Sistina, cujo acesso estava vedado no preciso dia em que lá fui. Melhor assim. Enquanto ateu convicto, prefiro não ver as pinturas de Michelangelo do que dar dinheiro a ganhar à igreja católica.

Praça de São Pedro

Voltando a Roma, uma das melhores formas de contactar com a essência da cidade é caminhar em toda a extensão da Via del Corso desde a Piazza del Popolo. A partir desta artéria, um desvio pela Via del Seminario leva ao Pantheon, templo do século II, dedicado à adoração de todos os deuses da mitologia romana.

Pantheon

Finalmente, uma visita a Roma não ficaria completa sem uma passagem por dois dos seus locais mais emblemáticos: a Piazza di Spagna e a sua famosa escadaria do século XVIII, que conduz à igreja da Santissima Trinità dei Monti (século XVII), e a Fontana di Trevi, uma imponente fonte de estilo barroco datada de 1732 onde é obrigatório atirar uma moedinha e pedir um desejo qualquer.

Escadaria da Piazza di Spagna e, ao cimo, a igreja da Santissima Trinità dei Monti


Vista de Roma a partir da igreja da Santissima Trinita dei Monti

Fontana di Trevi

E muito mais haveria para destacar, porque Roma é, em suma, um museu ao ar livre em forma de cidade, onde a cada canto surge um motivo diferente de interesse - um pormenor arquitetónico, uma praceta, uma estátua, uma basílica imponente, um palacete, uma ruína romana com uma história para contar.

Um postal de Roma: o rio Tibre, a ponte Sant'Angelo e, ao fundo, a Basílica de São Pedro

Contudo, a capital italiana não deixa de ter os seus pontos negativos: o turismo em massa (mesmo em dezembro, havia mais turistas do que seria desejável) o que, aliado aos quase 4 milhões de habitantes, fazem de Roma uma cidade com gente a mais; indianos e africanos (sempre as mesmas raças, f0d4-$€!) a aproveitarem-se desse turismo de massa para impingirem pulseiras, selfie sticks e outros objetos inúteis como eles, à força toda; trânsito intenso e, aparentemente, com maior desrespeito pelas regras que na Roménia, o que parecia impossível; e comida, pois é suposto haver ali do melhor que a cozinha italiana tem para oferecer, mas as pizzas vêm com a grossura de uma panqueca e a textura de uma bolacha, e as pastas também não são nada de mais, mesmo nos restaurantes mais turísticos.
Apesar de tudo isto, não deixa de ser um destino que vale a pena ser visitado, pela herança histórica e também pelo romantismo que transmite. Li algures que haverá poucas coisas mais românticas do que passear pelas ruas estreias do centro de Roma, de mão dada com a companhia certa. É capaz de ser verdade.

A melhor rua de Roma, apesar de não ter nada de especial para além do nome. Lamentei não ter ali um cachecol do Sporting para complementar a fotografia.