quarta-feira, 9 de agosto de 2017

De volta às montanhas

Enquanto rapaz da Serra, é-me bastante agradável qualquer deslocação às montanhas. Sinaia e Busteni foram o destino da mais recente visita aos Cárpatos, localidades já visitadas anteriormente mas às quais é sempre bom voltar, para respirar o ar fresco e puro da montanha e fugir às temperaturas tórridas que por esta altura assolam Bucareste.


De Sinaia fica o agradável piquenique no parque Ghica e a minha terceira visita ao Palácio Peles, um edifício que parece exibir, a cada visita, um novo ângulo para ser admirado e fotografado.

Palácio Peles, terceira visita e centésima fotografia (para aí). Nunca é demais.

O destino principal da viagem era, no entanto, Busteni, para cumprir um objetivo há muito desejado e que já havia tentado na minha última deslocação a esta localidade, sem sucesso: subir ao topo das montanhas, onde se encontra a Cruz dos Heróis (Crucea Eroilor), um monumento de homenagem às vítimas da Primeira Guerra Mundial.
Contrariamente ao que aconteceu em novembro passado, desta vez encontrei o teleférico aberto, mas com uma fila de espera digna de uma repartição de finanças. Ao todo foram 2 horas e 50 minutos de seca e 10 minutos de subida com vistas dramáticas sobre os penhascos. Três horas, portanto, para chegar lá acima. Mais demorado que ir a pé (comprovado por um companheiro de viagem que demorou pouco mais de 2 horas).

Telecabină Busteni-Babele. 10 minutos até lá acima, quase 3 horas para tirar bilhete.

A subida por telecabină termina em Babele, perto de um penedo icónico a que chamam de Sfinxul (a Esfinge), mas que em nada se assemelha aos míticos leões com cabeça humana do Antigo Egipto. 

Uma espécie de esfinge

No entanto, se as formações rochosas não impressionam por aí além, já as vistas que se obtêm a partir daquele ponto, a 2216 metros de altitude, são espectaculares. Não vale a pena adjetivar mais, as fotografias falam por si.




Sim, andam ali ovelhas. Centenas delas

A Crucea Eroilor está a cerca de uma hora de caminhada de distância, a partir de Babele, e obriga a subir mais um pouco. Os (quase) 2400 metros de altitude atingidos pelo caminho constituem agora um record pessoal, já que nunca tinha andado a tais altitudes.

Mais alto que os 2291 metros da Cruz dos Heróis

Para o regresso a Busteni, nova viagem de telecabină e, por conseguinte, nova fila e nova espera de quase 3 horas. Seis horas de um domingo desperdiçadas em filas de teleférico mas, como nem tudo tem de ser mau mau, fica a lição: em fins de semana estivais, metade das 3 milhões de almas que habitam Bucareste vai à praia (Mamaia, sobretudo), a outra metade vai às montanhas (por uma questão de proximidade, Sinaia, Busteni e redondezas), portanto há que evitar locais potencialmente concorridos.

Entretanto, está já planeado outro fim de semana fora da capital (há que aplicar o lema "niciun weekend acasa" sempre que possível). O destino será Orșova, nas margens do Danúbio, junto à fronteira com a Sérvia. Uma região que me ficou na retina desde que ali passei de comboio a caminho de Budapeste e que agora, dois anos mais tarde, terei oportunidade de visitar. É possível que haja um post a respeito, com a regularidade que se conhece (daqui a 2 meses, portanto).

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Santorini

A saga do viajante solitário pode ter chegado ao fim, mas isto das viagens é para continuar. E para iniciar este novo capítulo, não poderia haver melhor destino: a mais visitada, a mais fotografada, a mais famosa, a mais romântica das ilhas gregas - Santorini.



Qualquer fotografia passada pelo Photoshop que se encontre online ou em brochuras turísticas não faz justiça à beleza desta ilha das Ciclades. Santorini é um local encantador, de beleza singular, com falésias majestosas e escarpadas precipitando-se abruptamente sobre o mar, encimadas por vilarejos pitorescos de casinhas alvas, de um branco que fere a vista e que, ao longe, pode dar a ideia de neve a um olhar mais fugidio e desatento. As vistas abrangentes sobre a caldeira vulcânica a partir do topo dos penhascos mostram o casamento perfeito entre as cores que dominam a palete cromática da ilha - o branco das construções e as diferentes tonalidades de azul do céu e do mar, com as falésias de permeio.

A palete cromática de Santorini

Apesar de ser um local casado com o mar, a origem vulcânica da ilha e a sua geografia costeira fazem com que Santorini não se destaque pela sua oferta balnear. As praias de areia negra de Kamari e Perissa são as melhores opções para quem dali não queira sair sem dar um mergulho nas águas do Mar Egeu.

Praia de Perissa... 

... e praia de Kamari, do outro lado do rochedo.

Entre as povoações da ilha, merecem especial destaque a capital Fira e as ruelas estreitas do seu centro histórico, plenas de comércio, e Oia, também de ruas pitorescas e com vistas espetaculares sobre o mar.

Vista sobre Fira

Oia

Oia outra vez. 

Oia novamente. Certamente a localidade mais fotogénica de Santorini.


Imerovigli, entre Fira e Oia

Além da ilha principal, denominada Thira, Santorini engloba ainda o vulcão extinto de Nea Kameni e à ilha de Thirassia, locais que podem ser visitados em cruzeiros de um dia.

Cruzeiro rumo ao vulcão extinto de Nea Kameni

Oia vista a partir do mar

O pôr do Sol, também ele um cartão de visita da ilha, é realmente impressionante e cria um ambiente romântico... desde que se exclua do quadro as centenas de turistas que se acotovelam para conseguir o melhor ângulo. E é aqui que começa a faceta menos positiva de Santorini. Por detrás da beleza paisagística, está a realidade nem sempre agradável de um hotspot turístico, que retira algum (muito) encanto ao local.

O famoso pôr do Sol em Oia, Santorini

Há um ano, após visitar a menos conhecida ilha de Aegina, escrevi que esse local "reúne os encantos que acredito serem comuns a todas as ilhas gregas: tranquilidade, vilas pitorescas, praias de águas límpidas e boa comida. Uma espécie de paraíso na Terra". Foi uma generalização errada, já que em Santorini não encontrei esse ambiente bucólico, relaxado, tranquilo, mas antes um local muito virado para o turismo e, consequentemente, demasiado caro e com demasiado movimento. Recorrendo a dois vocábulos da língua inglesa, Santorini acaba por ser um destino overrated e overcrowded. Mas não deixa de valer a pena, especialmente quando visitado em boa companhia.

Frozen yogurt com vista para Fira

Falta só referir a parte inicial da viagem: para chegar a Santorini a partir de Bucareste houve necessidade de fazer escala em Atenas por algumas horas. Uma segunda passagem pela capital grega, que permitiu revisitar pontos importantes como a Praça Syntagma, a zona histórica de Plaka e a área comercial de Monastiraki.

Vista para a Acrópole a partir de Plaka

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O litoral desconhecido

Junho é o mês ideal para as primeiras deslocações à costa. O destino é para leste, rumo a Constanța, cidade portuária e porta de entrada para o litoral romeno. Com os seus parcos 275 quilómetros de linha costeira junto ao Mar Negro, a (pouca) fama da Roménia enquanto destino balnear assenta essencialmente na sobreocupada Mamaia, e nas jovens e festivaleiras Costinesti e Vama Veche. Mas para além destes destinos, a costa da Roménia tem também outras localizações menos conhecidas, menos visitadas, e onde o tempo parece ter parado. Menos turismo, menos movimento, estâncias algo decadentes, pontuadas por edifícios de arquitetura austera do período comunista, alguns já tomados por sinais de degradação, mas que resistem estoicamente como postais evocativos de tempos de outra glória. Estamos em Olimp, uma das estâncias turísticas que evoca a mitologia grega, mas que em nada faz lembrar a casa dos deuses.

Olimp, com vista parcial sobre o complexo de hotéis Belvedere-Amfiteatru-Panoramic, parcialmente votado ao abandono.

Para sul, até Mangalia, estendem-se outras quatro estâncias mitológicas de semelhante cenário - Neptun, Jupiter, Venus e Saturn. Dados os nomes, que tanto podem ser associados à mitologia grega como à astronomia, poderia dizer-se que estas estâncias turísticas são de outro mundo, e acredito que o tenham sido no auge do regime comunista. Agora são apenas uma pálida lembrança do que já foram, mas não deixam de constituir uma viagem no tempo e um prato cheio para quem gosta de história e arquitetura, ao mesmo tempo que permitem usufruir da praia sem o bulício das estâncias mais movimentadas.

Hotel em Neptun, um exemplo da austeridade e simplicidade arquitetónica do modernismo soviético.

Praia em Neptun.

Qualquer deslocação ao litoral tem de passar, quase obrigatoriamente, por Constanța. Terceiro verão na Roménia, terceira visita à cidade, mais uma fotografia do icónico Casino.

terça-feira, 30 de maio de 2017

24 meses, 24 imagens

O tempo passa depressa demais. Faz já dois anos que me mudei para Bucareste. Dois anos! E, de acordo com a duração do meu vínculo laboral, por cá ficarei pelo menos mais meio ano. Mas com algumas mudanças na minha vida pessoal que entretanto aconteceram, poderei quer manter-me por cá ainda mais tempo. E é assim que uma primeira experiência internacional, uma espécie de substituto de Erasmus ou Voluntariado Europeu para quem não fez nada disso, se pode vir a tornar numa coisa séria. Veremos.
Para já, resta assinalar a efeméride de algum modo. Aqui fica uma fotogaleria de 24 imagens, uma por cada mês passado na Roménia.

 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Futebol romeno

Na semana passada, assisti ao vivo a um jogo de futebol pela 4ª vez desde que cheguei à Roménia. Depois de um Steaua-Botosani logo no meu primeiro fim-de-semana neste país, um derby Dinamo-Steaua no meio dos aficionados da Peluza Catalin Hildan e um Dinamo-Viitorul Constanta em Fevereiro último (e ainda uma tentativa falhada de ver outro derby), desta vez assisti a novo confronto entre os dois maiores clubes de Bucareste. Um "Eternul Derby" de caráter decisivo para as contas do campeonato e que levou 37 mil pessoas à Arena Nationala, o estádio nacional romeno.
Antes do apito inicial, a claque do Dinamo deu espetáculo, com uma coreografia a apresentar uma "previsão" de Nostradamus para 2020: Um estádio novo, sem pista de atletismo, e o Steaua a desaparecer por culpa de gente que não percebe nada de futebol...


Quanto à história do jogo dentro das quatro linhas, explica-se também em quatro linhas de texto (ou nem isso): o futebol foi sofrível, o Dinamo beneficiou de um penalty na primeira parte, consentiu um golo parvo a abrir a segunda metade e beneficiou de outra grande penalidade já nos descontos. 2-1 para os cães vermelhos, que assim reentraram na luta pelo título.


Mencionar este derby é também uma boa oportunidade para fazer algo que ainda não fiz neste espaço: falar sobre o futebol que se pratica neste canto do Leste Europeu.
Longe dos tempos em que o Steaua era campeão europeu e Gheorghe Hagi, o Maradona dos Cárpatos, encantava o mundo do futebol, o desporto-rei na Roménia resume-se, por estes dias, a um cenário de fraca qualidade, corrupção e dificuldades económicas. Por conta destes aspetos, sobretudo deste último, o campeonato romeno é palco de mudanças constantes, com clubes que desaparecem após experimentarem um sucesso efémero. São muitos os exemplos que se encontram, recuando apenas 10 anos. O Unirea Urziceni foi campeão pela primeira e única vez em 2009, disputou a Champions League e logrou ficar em 3º num grupo com Sevilla, Stuttgart e Rangers, qualificando-se para a Europa League, onde foi eliminado pelo Liverpool. Um ano depois desta campanha europeia, o clube foi despromovido e dissolvido. O Otelul Galati, outro campeão estreante, conquistou o título romeno em 2011 e disputou a fase de grupos da Champions League com Manchester United, Benfica e Basel; acabou por descer de divisão em 2015 e foi dissolvido no ano passado. O Vaslui, vice-campeão romeno em 2012 e com presença assídua na Europa League entre 2009 e 2013, onde chegou a ganhar um jogo ao Sporting, foi despromovido por dificuldades económicas em 2014, apesar de ter acabado em 5º no campeonato, e agora arrasta-se pelas divisões inferiores. Pelas divisões mais baixas anda também o Rapid, o terceiro clube da capital, vencedor de 3 campeonatos (o último em 2003) e vice-campeão em 14 ocasiões, e que ainda em 2006 chegou aos quartos-de-final da Europa League (caindo perante o Steaua). Depois da despromoção em 2015, os ferroviários conseguiram a promoção dentro de campo, mas as dificuldades financeiras fora dele ditaram a falência do clube de Giulesti. Apenas Steaua e Dinamo (desde a década de 1940) e Cluj (desde 2005) se vão mantendo na primeira divisão. 
De referir que o Steaua, o clube mais titulado e com mais adeptos da Roménia, está agora proibido de usar esse nome e utiliza a sigla FCSB. Tudo devido a uma ação movida pelo Ministério da Defesa contra o clube e o seu atual proprietário, o polémico Gigi Becali, alegando que o exército, detentor do histórico clube CSA Steaua mas que viu a secção de futebol tornar-se independente em 1998, tem direitos sobre a utilização do nome, logótipo e palmarés. A justiça concordou e, perante a recusa de Becali em pagar qualquer indemnização pelo uso do nome, o FC Steaua Bucuresti passou a denominar-se FCSB. Entretanto, o exército vai reativar a secção de futebol do CSA, pelo que a partir da próxima época haverá um novo Steaua, a competir nas divisões inferiores. Existirão, de certo modo, dois Steaua, nada de novo neste país, até porque já existiram dois Universitatea Craiova, com as mesmas cores e reclamando o mesmo palmarés, que chegaram a jogar entre si na segunda divisão (este artigo do Público resume bem a história), e há neste momento dois Politehnica Timisoara - o clube original, fundado em 1921, foi dissolvido em 2012 mas um outro emblema vizinho, então na segunda divisão, foi relocalizado para Timisoara, dando seguimento à história e ao palmarés com o nome de ACS Poli; entretanto, um grupo de adeptos fundou um novo clube nas divisões regionais: o ASU Politehnica. O ACS está na primeira divisão, a lutar para não descer, e o ASU compete na segunda divisão. Um encontro oficial entre os dois emblemas já esteve mais longe. Sim, o futebol romeno é pródigo em episódios caricatos.

Duas equipas (Poli Timisoara e Targu Mures) chegam ao jogo com equipamentos de cores iguais. A solução: o conjunto visitante arranja umas t-shirts brancas e escreve os números à mão. Um episódio verídico que teve lugar em dezembro passado.

Entre os novos competidores do futebol romeno encontram-se o Astra, clube que se mudou de Ploiesti para Giurgiu em 2012 e foi campeão em 2016, e o Viitorul Constanta, o projeto de futebol de formação criado por Gheorghe Hagi na sua cidade natal em 2009. A equipa principal chegou já às competições europeias e na presente temporada luta com Steaua (ou FCSB) e Dinamo por um título inédito, com um plantel 99% romeno e com uma média de idades de 23 anos. Um projeto interessante e que, fazendo uso das boas instalações desportivas que possui, se espera poder mudar alguma coisa num país cujo futebol está arredado da ribalta europeia e à procura de melhores dias.

domingo, 30 de abril de 2017

The Lonely Traveler, pt. 6 - Suíça

Uma viagem carregada de simbolismo. O anunciado último capítulo da saga do viajante solitário teve como destino a Suíça, para uma jornada que havia prometido a mim mesmo: o regresso à terra natal, 20 anos depois.

Zofingen, Aargau, Suíça: o principal objetivo da viagem

Com o objetivo de adicionar algo mais a esta viagem do que apenas nostalgia, voei de Bucareste para Itália, por forma a entrar na nação helvética pelo Sul, visitando Lugano e atravessando depois os Alpes, rumo a Aargau, no Norte.
Após aterrar no aeroporto de Linate, a primeira paragem foi, por inerência do trajeto, a cidade de Milão. Tratando-se da minha segunda passagem pela capital da Lombardia, não me detive por lá muito tempo, apenas o necessário para mais umas fotografias ao Duomo, à Galleria Vittorio Emmanuele II e à praça circundante. Chovia torrencialmente, mas nem assim o centro nevrálgico milanês se apresentava menos desimpedido de turistas asiáticos, ou de moços africanos/indianos a tentarem impingir coisas (pulseirinhas e, naquele dia, guarda-chuvas).

Piazza del Duomo num dia chuvoso

Na estação Centrale, apanhei depois o comboio regional que dá pelo simpático nome de TILO (Ticino-Lombardia), e que liga Milão a Bellinzona, no cantão italiano da Suíça. Cheguei a Lugano já de noite e ainda debaixo de chuva forte. A Suíça passava, finalmente, a fazer parte do meu mapa de países visitados. E chegou assim ao fim um dia em que estive em 3 países diferentes (creio ter sido a primeira vez que tal me aconteceu): acordei na Roménia, passei por Itália e fui dormir à Suíça.

Um comboio sorridente 

Lugano, a maior cidade do cantão de Ticino e situada às margens do lago homónimo, estava na minha lista há bastante tempo. Do mal o menos, no dia que destinei para a explorar, a chuva deu tréguas durante algumas horas.
Um bom sítio para começar a conhecer a cidade é precisamente junto à estação ferroviária, de onde se obtêm excelentes panorâmicas sobre o casario e o lago. Continuando em direção ao centro, há duas opções: ir a pé, passando pela Catedral de San Lorenzo e descendo a Via Cattedrale, ou apanhar o funicular, que vai da estação até à Piazza Cioccaro. Já no centro, é obrigatório passar pela Piazza della Riforma, a praça principal da cidade, de arquitetura tipicamente italiana, e onde se destaca o Palazzo Civico, sede do município. Nas traseiras do Palácio surge a marginal e o lago, com vistas soberbas para o Monte San Salvatore, o "Pão de Açúcar" em ponto pequeno, que dá a Lugano a alcunha de "Little Rio". A visita a esta cidade alpina, mas de aparência mediterrânica, não fica completa sem uma passagem pelo florido e bem conservado Parco Civico, um simpático espaço verde com belas vistas sobre o lago, a cidade e os montes circundantes.

Vista sobre Lugano, com a torre da Catedral de San Lorenzo em destaque 

Fachada do Palacio Civico, que domina a Piazza della Riforma

Lago di Lugano e o Monte San Salvatore, o "Pão de Açúcar" local

Parco Civico

Concluída a visita a Lugano, era tempo de avançar para o verdadeiro objetivo desta viagem: visitar a minha cidade natal e percorrer os cenários da minha infância. No dia seguinte, manhã cedo, estava na estação para apanhar um comboio para norte, através das montanhas e do recém-inaugurado Túnel de São Gotardo, o mais extenso túnel ferroviário do mundo. Tirei bilhete para Luzern, que me custou 61 francos, sensivelmente o triplo do preço do bilhete de avião de regresso à Roménia. A Suíça é um país escandalosamente caro. Fiquei revoltado e decidi que não voltaria a pagar para andar de comboio. E assim foi. Depois de uma rápida passagem por Luzern, meti-me noutro comboio rumo a Zofingen, a minha cidade natal, sem comprar bilhete. Entrei, fechei-me na casa de banho, e duas paragens depois, saí. Desta forma, não gastei 20 francos. Entretanto, resta acrescentar que no trajeto entre o final do Túnel de São Gotardo e Luzern nevou com intensidade. Teria sido melhor ver os cumes das montanhas sob um dia solarengo, mas ver tempestades de neve em finais de abril também é engraçado.

A única montanha que se deixou ver durante a travessia de comboio, ainda antes do Túnel de São Gotardo

Luzern num dia gelado. Vista da Kapellbrücke, a icónica ponte de madeira sobre o rio Reuss, construída em 1365.

O regresso a Zofingen começou pelo seu pequeno e organizado centro histórico (altstadt), acessível logo à saída da estação. Caminhar pelas ruas pacatas da altstadt é como viajar no tempo, no meu caso em dose dupla. Além de contactar com a História de uma típica cidade Suíça, que remonta ao século XIII, passar por locais emblemáticos como o edifício da Rathaus, a central Niklaus Thut Platz, a icónica Stadtkirsche ou a Pulverturm e o seu canhão trouxe de volta memórias de infância. Enquanto turista mas também com uma pontinha de orgulho por ser natural desta terra, direi que Zofingen tem, possivelmente, o mais bonito e bem conservado centro histórico que já visitei.

 Zofinger Altstadt vista a partir da estação ferroviária 

Niklaus Thut Platz, a praça central de Zofingen

Entrada no centro histórico de Zofingen pela Vordere Hauptgasse, bem guardada por dois majestosos leões (não é por ser do Sporting, mas estes bichos ficam bem onde quer que lhes ergam uma estátua)

Para completar o tour nostálgico, faltava ir à localidade onde residi: Strengelbach, a pouco mais de 2 quilómetros de Zofingen. Fui a pé, replicando uma rota tantas vezes feita com os meus progenitores, e passei bons momentos a identificar locais ainda presentes na minha memória. Quanto a isto não me vou alongar muito, referirei apenas que foi bom voltar ali ao fim de duas décadas.

Sägetstrasse, a rua onde residi em Strengelbach

Uma fotografia digna de postal, captada nos arredores de Strengelbach

O dia acabou em Basel, onde cheguei de comboio, mais uma vez sem bilhete (se resultou uma vez, porque não insistir e poupar mais uns francos?). A cidade explorei-a no dia seguinte, enquanto esperava pela hora do voo de regresso a Bucareste.
Situada no extremo noroeste da Suíça, junto à fronteira com Alemanha e França, Basel é atravessada pelo rio Reno, que a divide em duas partes distintas - Grossbasel, que inclui a cidade antiga, na margem sul, e Kleinbasel, na margem norte. A uni-las há diversas pontes, sendo a mais famosa a Mittlere Brücke, cuja estrutura original remonta a 1226. As atrações concentram-se, sobretudo, em Grossbasel, começando pela Marktplatz, encimada pela Rathaus (câmara municipal), e terminando na catedral de Münster, com a sua vasta praça e o miradouro sobre a cidade, passando pelo emaranhado de ruas estreitas da cidade medieval. Do lado de Kleinbasel, destaca-se a marginal Oberer Rheinweg, um local privilegiado para passar um tempo agradável a ler ou a petiscar alguma coisa, na companhia das águas do Reno e com vista para Grossbasel e o seu casario sobre o rio.

Fachada da Rathaus (e dá para ver que Basel tem orgulho no seu clube de futebol)

Basler Münster

Altstadt Grossbasel (cruzamento das ruas Nadelberg e Spalenberg)

Oberer Rheinweg, com vista para Grossbasel e para a Mittlere Brücke, a ponte mais antiga entre as duas margens do Reno 

Concluída a jornada por terras helvéticas, o voo de regresso à Roménia saiu do único aeroporto tri-nacional do mundo - O EuroAirport, situado em território francês, serve Basel (Suíça), Mulhouse (França) e Freiburg (Alemanha). Apesar de ter estado geograficamente em França (como também já tinha sucedido em 2011, a trabalhar nas vindimas, e antes disso, nas viagens de automóvel entre Suíça e Portugal), este país manter-se-á bloqueado no mapa de viagens. Podia também ter aproveitado a tríplice fronteira para ir à Alemanha, mas não estive para aí virado. Noutra altura lá irei. O mapa engloba agora 18 países e, com jeitinho, ainda este ano há-de chegar às duas dezenas, mas as viagens solitárias vão mesmo ficar por aqui. Foi uma excelente experiência, que recomendo a toda a gente. O meu travel map, esse, continuará a ser alargado até atingir (e ultrapassar) a minha idade em número de países visitados, mas a partir de agora estarei acompanhado nessa missão.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Novidades

Depois de quase dois meses de inatividade neste espaço, sinto-me compelido a escrever aqui qualquer coisa. Começando por explicar essa longa ausência, advoga em minha defesa o facto de o meu novo emprego não me dar descanso durante os dias úteis. Os fins de semana têm sido passados na melhor das companhias, mas sem sair de Bucareste. Ainda assim, tenho explorado alguns recantos desta cidade que, para mim, permaneciam desconhecidos. A capital romena é suficientemente grande para continuar a guardar segredos, ainda que eu já por aqui ande há quase dois anos.

Mosteiro de Plumbuita, em Bucareste.

E se, ultimamente, não tenho saído de Bucareste, em breve vai haver desforra. Daqui a exatamente um mês, cumprirei um dos objetivos pessoais para este ano: voltar à Suíça e, concretamente, à minha Zofingen natal, 20 anos depois. O roteiro incluirá também Lugano (cidade que está na minha lista há bastante tempo) e Basel, numa viagem que será, muito provavelmente, o derradeiro episódio da saga do Lonely Traveler.

Zofingen

Já em junho voltarei à Grécia, desta vez para visitar um local que também andava pela minha lista, mas que requeria condições especiais (leia-se, companhia feminina): Santorini. Será a primeira viagem de uma nova (e, espero, longa) série, dedicada às viagens a dois.