quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Sibiu, Alba Iulia, Târgoviște

2017 terminou da mesma forma que havia começado: a descobrir mais um bocadinho da Roménia. A última viagem do ano, aproveitando a quadra natalícia, teve como destino as cidades de Sibiu e Alba Iulia, no coração da Transilvânia.


Strada Cetății, a rua mais bonita de Sibiu segundo uma placa que por ali se encontra

No caso de Sibiu tratou-se de uma redescoberta (terceira visita), para conhecer uma versão diferente da cidade capital europeia da cultura em 2007: vestida com cores de inverno, e com o seu acolhedor centro histórico ornamentado pelo nacionalmente famoso mercado de natal, ou Târgul de Craciun (que, valha a verdade, apesar de ter a sua piada e de se enquadrar bem na central Piața Mare, nada tem de extraordinário face a outros eventos similares).

Mercado de Natal de Sibiu.

Além da novidade de explorar Sibiu em versão invernal, esta visita permitiu ainda cumprir algo que ficou por fazer nas duas visitas anteriores: subir ao topo da torre da Catedral Luterana. A subida, feita por uma escadaria íngreme de madeira com 160 degraus, que dá a ideia de poder ceder a qualquer momento, não é a mais fácil, mas é compensadora: lá do alto dos seus 74 metros, obtêm-se vistas abrangentes sobre toda a cidade e arredores.


Sibiu vista a partir do topo da torre da Catedral Luterana.

Outra coisa que continua por cumprir é ir refastelar-me ao Old Lisbon, que já foi o único restaurante Português em toda a Roménia (entretanto apareceu outro em Bucareste, onde também ainda não pus os pés). Terá de ficar para uma eventual quarta visita

Os "olhos de Sibiu": uma característica peculiar da arquitetura medieval presente na cidade faz com que as casas pareçam ter olhos nos telhados.

Umas dezenas de quilómetros a noroeste de Sibiu, outra cidade histórica, pitoresca e bem conservada convida a uma visita, para conhecer a maior fortaleza da Roménia. Trata-se de Alba Iulia e do seu ex-libris, a Cetatea Alba Carolina. Este complexo defensivo, em forma de estrela com sete bastiões (um pouco a fazer lembrar Almeida), data de 1715 e a sua construção foi responsabilidade do imperador austríaco Carlos VI (daí o nome), quando a Transilvânia era parte do Império Habsburgo, tendo por objetivo defender a cidade de ataques otomanos. Tem a particularidade de se situar no local onde, nos tempos do Império Romano, existiu Apulum, então uma das cidades mais importantes da Dácia.  Uma boa forma de admirar esta fortaleza é fazer o percurso pedonal pelo exterior, junto à muralha, que tem uma extensão total de três quilómetros.

Vista da Cetatea Alba Carolina a partir da Piata Tricolorului, com uma bandeira a condizer. Em destaque, o campanário da Catedrala Încoronării (à esquerda) e a torre da Catedral de São Miguel, datada do séc. XIII (à direita).

Além de chamar para si o estatuto de "cea mai mare cetate", Alba Iulia considera-se também "cealalta capitala", ou a outra capital. Uma capital simbólica (que já o foi na realidade, entre 1570 e 1692 enquanto capital do Principado da Transilvânia), sobretudo por ter sido ali que se oficializou a união da Transilvânia, juntamente com as províncias de Banat, Bucovina e Bessarabia, ao Reino da Roménia, a 1 de dezembro de 1918, após o término da Primeira Guerra Mundial (data atualmente celebrada como feriado nacional). Foi também nesta cidade que ocorreu, em 1922, a coroação simbólica de Ferdinand I (a título de curiosidade, neto da rainha D. Maria II de Portugal) como o rei da Roménia unida com as referidas províncias. Para celebrar a união e receber a coroação, ergueu-se outra das landmarks locais: a Catedrala Încoronării.

Catedrala Încoronării.

Alba Iulia é também uma cidade de contrastes. Deixar as ruas medievais da restaurada e organizada cetatea e sair pela Piața Tricolorului, em direção ao Parcul Unirii, equivale a fazer uma rápida viagem no tempo até à segunda metade do século XX. Aqui, é visível a marca do período comunista, desde os tradicionais blocos monolíticos de apartamentos até aos elementos que caracterizam o parque, como a fonte ou os arcos que ornamentam a entrada, junto à Piata Unirii. Este é, possivelmente, um dos locais da Roménia onde mais se sente a herança do comunismo.

Parcul Unirii, certamente um dos locais mais "soviéticos" da Roménia.

Entretanto, começou um novo ano e já houve uma viagem inaugural, ainda que curta. O destino foi Târgoviște, outra antiga capital (neste caso, da Valáquia, entre 1418 e 1659, tendo então perdido esse estatuto para Bucareste). 
O ponto incontornável da cidade é formado pela Curtea Domnească, um complexo defensivo do séc. XV que foi também local de residência do governante (voievod) do Principado da Valáquia, ou Țara Românească (atual sul da Roménia). Este conjunto monumental é dominado pela Torre Chindia, símbolo da cidade, cuja construção se deve a um dos mais célebres voievozi da Valáquia, Vlad III, ou Vlad Țepeș.

Curtea Domnească de Târgoviște. Ao fundo, a Torre Chindia, símbolo da cidade.

Vista da cidade a partir da Torre Chindia

Entretanto, e sendo este o primeiro post de 2018, é oportuno deixar aqui uma retrospetiva de 2017, para que, sempre que venha aqui ler isto, recordar o que marcou o ano.
Pois bem, 2017 foi mais um ano memorável (mas não tanto como o anterior) passado em terras de além-Cárpatos e, pontualmente, por outros locais da Europa. Houve viagens internacionais - desde logo, o regresso marcante à Suíça natal, 20 anos depois (e o fim da bonita saga do lonely traveler), e também Santorini (com nova passagem por Atenas), Roma e três das capitais do Danúbio (Budapeste, Bratislava e Viena), para além da obrigatória ida a Portugal - que permitiram adicionar três novos países (Suíça, Áustria e Eslováquia) ao meu travel map; houve, também, viagens intra-fronteiras - Predeal e montes Iezer a abrir o ano, Brasov (quarta visita) para correr mais uma meia-maratona, Neptun, Busteni (com subida a Babele e à Cruz dos Heróis), Orsova e Baile Herculane (com passagem por Craiova), Transfăgărășan (finalmente!) para fazer uma corridita de quase 10 km e, por último, Sibiu e Alba Iulia.
Extra-viagens, 2017 fica na memória pelos concertos - Bucovina no Hard Rock Cafe (primeira vez que lá entrei, ao fim de quase 2 anos em Bucareste), Apocalyptica na Sala Palatului e Sólstafir num clube ali para os lados de Grozavesti - e pela oportunidade única que foi ver o Sporting a jogar (e a golear) na Arena Nationala para a Champions League.

Sólstafir!

O ano fica ainda marcado por uma mudança de emprego, que me fez ficar (ainda) mais confortável na capital romena. No horizonte de 2018 não há planos para me ir embora. Ainda bem, sempre é mais fácil ir preenchendo o travel map a partir daqui.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Uma viagem a Roma

Há destinos turísticos que, mesmo não estando no topo das prioridades, são de visita obrigatória, pela importância que representam a nível histórico, cultural, social, político. Um desses destinos é Roma, a capital de Itália que já foi caput mundi, ou capital do mundo, enquanto centro de um vasto império, e que encerra em si uma História documentada superior a 2500 anos. Além disso, e falando no que realmente interessa, ir a Itália nos dias que correm é fácil e barato. Portanto, não há motivos para não visitar a chamada Cidade Eterna.

Vista de Roma a partir do topo da Scalinata dell'Aracoeli

No centro nevrálgico da capital moderna, resiste parte da construção majestosa que marcava também o centro da capital antiga - o Anfiteatro Flaviano (séc. I), comummente chamado Coliseu de Roma. Antigo palco de lutas de gladiadores e outros espetáculos durante os tempos áureos do Império Romano, o Coliseu subsiste como símbolo histórico da era imperial sendo, simultaneamente, um símbolo turístico de Roma e de Itália.


Coliseu visto por fora...
... e por dentro

O Coliseu é também um bom ponto de partida ideal para explorar a herança histórica de Roma. Nas imediações encontra-se o Arco de Constantino (séc. IV) e, ao longo da Via dei Fori Imperiali, distribuídas por ambos os lados, as ruínas do Foro Romano, coração da Roma Antiga, e dos fóruns imperiais de César, Nerva, Augusto e Trajano.

Arco de Constantino visto a partir do interior do Coliseu


Via dei Fori Imperiali. Ao fundo, o Coliseu.


Foro Romano

Estátua do imperador Trajano, de costas para o fórum imperial que mandou construir no ano 106

A Via dei Fori Imperiali conduz à Piazza Venezia, dominada pelo Altare della Patria, um monumento do sec. XIX em honra de Vitorio Emanuele II, primeiro rei da Itália unificada. Continuando pela Via del Plebiscito e depois pelo Corso Vitorio Emanuele II e Corso del Rinascimento, surge uma das mais célebres praças de Roma: a Piazza Navona, com as suas três fontes (Fiumi, Moro e Nettuno) e a igreja Sant'Agnese in Agone (século XVII).

Altare della Patria

Igreja de Sant'Agnese in Agone e Fontana dei Fiumi, na Piazza Navona

Seguindo em direção ao Tibre, encontra-se a ponte de Sant'Angelo e, já na margem direita do rio, o castelo homónimo (séc. II). A partir daqui, a Via della Conciliazione dá acesso à Cidade do Vaticano, considerado o mais pequeno estado independente do mundo.


Castelo Sant'Angelo


Via della Conciliazione, em direção à Praça de São Pedro (Vaticano)

Podia adicionar aqui mais um país ao meu travel map, mas não considero o Vaticano como tal. É como se fosse apenas mais um bairro de Roma. Merece ser visitado pela beleza e sumptuosidade da Praça de São Pedro e da Basílica dedicada ao mesmo santo e, para quem ligar a isso, pelo simbolismo que estes locais carregam para a religião católica. Há também a Capela Sistina, cujo acesso estava vedado no preciso dia em que lá fui. Melhor assim. Enquanto ateu convicto, prefiro não ver as pinturas de Michelangelo do que dar dinheiro a ganhar à igreja católica.

Praça de São Pedro

Voltando a Roma, uma das melhores formas de contactar com a essência da cidade é caminhar em toda a extensão da Via del Corso desde a Piazza del Popolo. A partir desta artéria, um desvio pela Via del Seminario leva ao Pantheon, templo do século II, dedicado à adoração de todos os deuses da mitologia romana.

Pantheon

Finalmente, uma visita a Roma não ficaria completa sem uma passagem por dois dos seus locais mais emblemáticos: a Piazza di Spagna e a sua famosa escadaria do século XVIII, que conduz à igreja da Santissima Trinità dei Monti (século XVII), e a Fontana di Trevi, uma imponente fonte de estilo barroco datada de 1732 onde é obrigatório atirar uma moedinha e pedir um desejo qualquer.

Escadaria da Piazza di Spagna e, ao cimo, a igreja da Santissima Trinità dei Monti


Vista de Roma a partir da igreja da Santissima Trinita dei Monti

Fontana di Trevi

E muito mais haveria para destacar, porque Roma é, em suma, um museu ao ar livre em forma de cidade, onde a cada canto surge um motivo diferente de interesse - um pormenor arquitetónico, uma praceta, uma estátua, uma basílica imponente, um palacete, uma ruína romana com uma história para contar.

Um postal de Roma: o rio Tibre, a ponte Sant'Angelo e, ao fundo, a Basílica de São Pedro

Contudo, a capital italiana não deixa de ter os seus pontos negativos: o turismo em massa (mesmo em dezembro, havia mais turistas do que seria desejável) o que, aliado aos quase 4 milhões de habitantes, fazem de Roma uma cidade com gente a mais; indianos e africanos (sempre as mesmas raças, f0d4-$€!) a aproveitarem-se desse turismo de massa para impingirem pulseiras, selfie sticks e outros objetos inúteis como eles, à força toda; trânsito intenso e, aparentemente, com maior desrespeito pelas regras que na Roménia, o que parecia impossível; e comida, pois é suposto haver ali do melhor que a cozinha italiana tem para oferecer, mas as pizzas vêm com a grossura de uma panqueca e a textura de uma bolacha, e as pastas também não são nada de mais, mesmo nos restaurantes mais turísticos.
Apesar de tudo isto, não deixa de ser um destino que vale a pena ser visitado, pela herança histórica e também pelo romantismo que transmite. Li algures que haverá poucas coisas mais românticas do que passear pelas ruas estreias do centro de Roma, de mão dada com a companhia certa. É capaz de ser verdade.

A melhor rua de Roma, apesar de não ter nada de especial para além do nome. Lamentei não ter ali um cachecol do Sporting para complementar a fotografia.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Emigrante sem saudades

No decurso de uma deriva cibernética, dei por mim a assistir a uma reportagem da RTP (esta aqui) sobre emigrantes que saíram de Portugal nos anos de maior aperto da crise económica (2011-2014) e que, entretanto, voltaram às origens. Como emigrante, e ainda que não tenha saído desse período crítico (curiosamente, nesses anos consegui manter-me a trabalhar em Portugal, ainda que a ser explorado à grande e à portuguesa, mas isso são outras histórias...), senti-me compelido a clicar no play para ouvir testemunhos de quem deixou Portugal mas que, ao contrário de mim, já para lá voltou. E comprovei que não sou um emigrante normal (nada que já não soubesse).
Enquanto um entrevistado afirmava que, ao apanhar o avião para ir embora, lhe dava um "aperto no coração", eu pensava para comigo, "eu sinto é alívio"; enquanto outro entrevistado dizia ter saudades da família e do meio a que estava habituado, eu pensava "ainda bem que não tenho esse problema das saudades, realmente deve ser chato"; enquanto todos eles declaravam que sempre quiseram regressar e se mostravam felizes por viverem de novo no seu país, eu concluía que "não senhor, não tenciono, nem quero, voltar para Portugal".

E se não tenho intenção de voltar para Portugal em definitivo, a vontade de lá ir de férias também é pouca ou nenhuma. Ainda agora, que se aproxima o natal (época que, para mim, perdeu todo o encanto quando percebi que, em vez de um suposto pai natal, eram os meus progenitores que gastavam dinheiro com os presentes), os meus colegas de trabalho portugueses se mostraram surpreendidos por eu não ir a Portugal nesta altura. E mais surpreendidos ficaram ao saber que, desde que emigrei, nunca fui a Portugal no natal. Todos eles vão, e eu, contrariamente aos dois natais anteriores, em que o trabalho me impediu, também podia ir, se assim quisesse. Ainda tenho dias de férias, e para cobrir o resto podia trabalhar a partir de casa. Mas não quis. Em boa verdade, se lá vou de vez em quando é por desencargo de consciência. Aliás, chateia-me um bocado (para não dizer muito) ter de gastar metade dos dias de férias a que tenho direito para me ir enfiar numa aldeola no meio da serra, quando podia utilizá-los a fazer o que faço com a outra metade: viajar. Mas pronto, como diz a minha progenitora, não apareci já criado, aí algures atrás de uma couve ou de uma gesta. Há que fazê-lo por eles, pelos progenitores, até porque são a única família que tenho neste mundo. 

Emigrei em 2015 para um país da Europa de Leste, o que leva as pessoas a dizer coisas como "então isso é tão pobre, eles vêm para cá e tu vais para lá?" e "deves ser o único português aí, não?" (infelizmente não sou, que os portugueses, essa raça do diabo, estão por todo o lado). Após dois anos e meio, tenho um emprego estável no departamento financeiro numa das maiores empresas do mundo, com salário mileurista, certinho e pago a tempo e horas, algo que dificilmente, muito dificilmente, teria em Portugal. Ou, se me quiser deixar de merdas, não teria. E esta estabilidade laboral leva-me a olhar para Portugal de nariz torcido e, porque não, de dedo do meio em riste. Sei que, ao proceder deste modo, estou a perpetuar a minha continuidade numa comunidade à qual não pertenço (caí aqui um pouco de para-quedas e, após tanto tempo, ainda nem a língua falo de forma fluente), ao mesmo tempo que vou sendo esquecido no país que me dá a nacionalidade, tornando-me progressivamente um "apátrida psicológico" (mas com BI e passaporte português, que dá sempre jeito). Pois bem, que assim seja.

sábado, 11 de novembro de 2017

Jardim Botânico

Há uns tempos, fui questionado sobre qual é o meu local favorito em Bucareste. Ocorreram-me vários, como é normal para alguém que está baseado na capital romena há 2 anos, a caminho do terceiro. Desde logo, o parque Herăstrău, running track de eleição, cenário de muitos passeios, palco de encontros, momentos, memórias; outro parque, o Titan/IOR, dos tempos em que residi no limítrofe cartier de Dristor; o Lacul Morii ao por do Sol; a majestosa Calea Victoriei, montra história dos tempos em que Bucareste era a "Little Paris of the East"; e, já para lá dos limites da cidade, os jardins do Palácio Mogoșoaia. Ficou no entanto a faltar, neste conjunto de locais prediletos, aquele que mais merece o epíteto de favorito. Um local que havia visitado apenas uma vez, num sábado chuvoso de setembro, e ao qual tive a oportunidade de voltar mais recentemente: o Jardim Botânico (Grădina Botanică).


Pode parecer estranha esta escolha, para alguém que não é estudioso ou apaixonado pela área da botânica e a quem, por isso, pouco interessam os mais de 10 milhares de plantas, incluindo plantas exóticas e medicinais, que ali se encontram. Acontece que este espaço é muito mais que um simples jardim botânico. É também um parque, mais acolhedor, mais bem conservado e muito menos frequentado que qualquer outro parque bucarestino, até porque se paga para entrar (apenas 2 lei, o equivalente a 44 cêntimos, se se aldrabar a senhora da entrada dizendo que se é estudante).


E é, sobretudo, uma ilha de sossego no centro de uma das mais caóticas capitais europeias. São quase 18 hectares de tranquilidade, entre o bulício das artérias Soseaua Cotroceni e Splaiul Independentei, que fazem esquecer a cidade à sua volta. O movimento, a confusão e o ruído urbanos ficam do lado de fora. Ali, apenas há lugar para apreciar os sons da natureza, pincelada com tonalidades outonais que, por esta altura, conferem a este quadro uma beleza adicional.


Além disso, o Jardim Botânico é um local com história. Ao longo dos seus 133 anos de existência (foi criado em 1884), este espaço sobreviveu às duas Guerras Mundiais - na Primeira foi ocupado pelos alemães, na Segunda foi atingido pelo bombardeamento das forças anglo-americanas. O local engloba ainda a Faculdade de Biologia da Universidade de Bucareste, instituição à qual pertence, e o Museu Botânico, instalado num palacete de estilo renascentista romeno (Brâncovenesc).


Natureza, História e, acima de tudo, um sossego rural no meio do caos urbano, a escassos metros deste mas, ao mesmo tempo, muito longe - é isto que faz de um Jardim Botânico o meu canto predileto em Bucareste.

sábado, 21 de outubro de 2017

As capitais do Danúbio

Ao longo do seu curso por uma dezena de países europeus, o rio Danúbio atravessa quatro capitais. A mais recente viagem permitiu visitar três delas - Budapeste, Bratislava e Viena (faltou Belgrado para completar o circuito das capitais banhadas pelo segundo maior rio europeu). E se no caso de Budapeste se tratou de um regresso, já as capitais eslovaca e austríaca estrearam-se no meu mapa de viagens. De caminho, e por força de uma escala de várias horas, houve direito a novo cromo repetido na caderneta viajeira: Bergamo. Quatro cidades, em quatro países diferentes, ao longo de cinco dias.

Budapeste

Um regresso à capital húngara, exatamente dois anos após a primeira visita, naquela lone trip das 15 horas de comboio (havendo rotas diretas, ir de avião é realmente mais rápido).

Vista de Budapeste a partir do Castelo de Buda, com a Catedral de Szent István, o Parlamento e a Ponte das Correntes sobre o Danúbio 

Budapeste é uma daquelas cidades onde não me importo de voltar e, desta vez, com melhor companhia e meteorologia mais favorável, vi a Rainha do Danúbio com outros olhos. Ainda que já conhecesse as principais landmarks locais, foi agradável visitar novamente a Basílica de Szent István, atravessar a Ponte das Correntes (Széchenyi Lánchíd) e passear pelo centro histórico de Buda, com passagem pelo castelo, Igreja de Matias, Bastião dos Pescadores e aquela que é, possivelmente, a rua mais bonita da cidade: a rua Tóth Árpád (que não destaquei no texto de há dois anos, mas devia). Com a companhia certa, e já pincelada com as cores outonais, esta rua é ainda mais bonita, ainda mais romântica.

Rua Tóth Árpád

Interior da Basilica de Szent István

Castelo de Buda e um dos leões que guarda a entrada da Ponte das Correntes

Qualquer passagem por Budapeste não fica completa sem uma caminhada pela marginal, ao longo do Danúbio e junto ao Parlamento (Országház) e um passeio pela Praça dos Heróis e pelo Parque Városliget.

Parlamento visto a partir da Ponte Magrit

Uma nova passagem pelo marcante memorial dos Sapatos no Danúbio

Parque Városliget numa manhã chuvosa (ir a Budapeste e não apanhar chuva deve ser quase impossível)

Por limitações de tempo, ficaram de fora a ilha Margit, a colina de Gellért e, novamente, as Termas de Széchenyi. Foi a visita possível (apenas um dia e meio). Última paragem em Budapeste: estação de Népliget, para apanhar um autocarro rumo ao destino seguinte.

Bratislava

A capital da Eslováquia é como todas as capitais deveriam ser: pequena, com pouca gente (locais e turistas) e, por isso, pitoresca e acolhedora. Esta atmosfera de cidade pequena, de capital que não o parece (também só o é há 25 anos) revela-se logo à saída do autocarro, na estação junto à ponte Most SNP - o centro é logo ali.

Rua Michalská. Ao fundo, o Michalská brána, ou Portão de São Miguel (séc. XIV)

Perspetiva noturna da fonte Maximiliánova, situada na Hlavné námestie, a praça central de Bratislava

Meio dia chega e sobra para percorrer o bem conservado centro histórico, passear pela marginal Razunovo nábreží, junto ao Danúbio, e subir ao Castelo (Bratislavský hrad), de onde se obtem uma excelente panorâmica sobre a cidade e arredores.

Estátua de Svatopluk I junto ao Castelo de Bratislava

Vista de Bratislava a partir do castelo

A estadia foi breve, mas suficiente para conhecer e ter ficado a gostar desta "little big city", como lhe chamam. E deu também para eliminar aquela imagem da cidade sombria e perigosa retratada no filme Hostel.

Viena

O destino principal da viagem e aquele que, por isso, teve direito a mais tempo (praticamente 2 dias inteiros) foi curiosamente o único que deixou um certo sabor a pouco. Se para visitar o centro histórico da vizinha capital eslovaca chega um par de horas, para o centro histórico de Viena não chega um par de dias, e a cidade inteira exigirá no mínimo uma semana.
Os dois dias orçamentados chegaram, no fundo, para o básico: visitar, no centro histórico (Innere Stadt) a Catedral de St. Stephan e a envolvente Stephansplatz, e caminhar pelas ruas pedonais Graben e Kohlmarkt até à Michaelerplatz, onde se ergue o Palácio de Hofburg, residência oficial da família imperial austríaca (dinastia Habsburg) durante vários séculos.

Catedral de St. Stephan

Graben

Pormenor da fachada do Palácio de Hofburg

Já um pouco afastado do centro, encontra-se outro ponto de visita obrigatória - o imponente Palácio de Schönbrunn e os seus vastos jardins, antiga residência de Verão dos Habsburg (Hofburg era a residência de Inverno).

Palácio de Schönbrunn

Ficou, no entanto, muita coisa por visitar e explorar - o centro histórico foi visto muito pela rama, a Ringstrasse, que contorna o Innere Stadt e é caracterizada como uma montra da arquitetura local, foi percorrida apenas parcialmente, o Prater e toda a área junto ao Danúbio ficaram em falta. Em boa verdade, nem vi o Danúbio em Viena, mas apenas o chamado Donaukanal, um antigo braço do rio principal que passa pelo centro da cidade. 

Donaukanal junto à Rembrandtstrasse

E, claro, ficou também em falta um contacto com a herança daquela que é considerada a capital musical da Europa. Por tudo isto, Viena merece um segundo round. Talvez um dia lá volte. 

Bergamo

Quando fui à Suíça em abril passado, gabei-me de ter estado em três países num só dia. Pois bem, desta vez e só por causa das coisas, foram quatro: acordar na Áustria, ir à Eslováquia apanhar um voo para Itália, e daí apanhar um outro voo de regresso à Roménia. Pelo meio, devido à proximidade face ao aeroporto e porque a rapariga nunca tinha estado em solo italiano, visitei novamente a cidade de Bergamo.
Se na primeira visita, ocorrida numa tarde chuvosa de quinta-feira, fiquei encantado com a cidade, agora que voltei num domingo solarengo já não achei tanta piada. Os encantos continuam lá, mas sendo fim-de-semana e havendo meteorologia agradável, fui encontrar as ruas pejadas de gente, e basta isso para ficar logo mal disposto. Até o funicular entre a Città Bassa e a Città Alta tinha uma fila ao estilo da Telecabina de Busteni, pelo que desta vez a subida teve de ser feita a pé, entrando pela Porta San Giacomo. Apesar do excesso de pessoas, foi agradável percorrer novamente a Via Gombito e passar pela Piazza Vecchia.

Via Gombito junto à Piazza Vecchia, com a Torre di Gombito em destaque

Torre Civica ou Campanone (séc. XI)

Esta viagem permitiu adicionar mais duas entradas (Áustria e Eslováquia) à lista de países visitados, que vai agora em 22. Seguindo a lógica de posts anteriores devia ir em 20, mas porque não contar Portugal se já fiz turismo lá dentro, e porque não contar a França mesmo que só lá tenha ido para trabalhar? Vale tudo para engrossar a lista, que o mundo é grande e a vida é curta.
Entretanto, está já planeada a próxima viagem, que será a última de 2017. Não adicionará nenhum país novo à lista, mas adicionará uma capital (outra contagem que me lembrei de fazer, e que vai em 17). O destino é Roma, será em período pré-natalício, e é claro que haverá um post a respeito.